quarta-feira, 26 de junho de 2013

Apesar de vitória no Supremo, gays ainda vivem em 'dois EUA'

Em uma decisão histórica, a Suprema Corte americana derrubou nesta quarta-feira a legislação que proibia o governo federal de reconhecer os matrimônios entre pessoas do mesmo sexo realizados nos Estados em que o casamento gay é permitido.
Por cinco a quatro, os nove magistrados permitiram que casais homossexuais passassem a ter acesso a mais de mil provisões e benefícios federais – por exemplo, em termos de seguridade social e imposto de renda – então reservados exclusivamente aos casais heterossexuais.
Após o anúncio, o presidente Barack Obama elogiou o Supremo e ordenou uma revisão "de todos os estatutos federais relevantes para que esta decisão, incluindo as suas implicações em termos de benefícios e obrigações federais, seja implementada rápida e eficazmente".
Partidários do casamento gay comemoraram e muitos choraram, segundo agências de notícias, do lado de fora da Corte, em Washington, quando a decisão foi anunciada.
O trecho da chamada Lei de Defesa do Casamento (Doma, na sigla em inglês) que define o matrimônio como "uma união entre um homem e uma mulher" foi contestado judicialmente por uma mulher de Nova York, Edith Windsor, que se casou com sua parceira Thea Clara Spyer no Canadá em 2007.
Spyer morreu em 2009. Mas para receber a herança, Windsor teria de pagar cerca de US$ 360 mil (R$ 790 mil) em impostos que normalmente não seriam aplicados a um cônjuge herdeiro heterossexual.
Analisando o caso, os juízes decidiram que essa discriminação é "inconstitucional" e equivale a uma "privação de liberdade", o que contraria a 5ª emenda da Constituição americana.
Hoje, 12 Estados e o Distrito de Columbia permitem o casamento gay. Mas a legislação barrava os benefícios federais mesmo para cônjuges como Spyer e Windsor, que viviam em Nova York – um Estado que reconhece esses matrimônios.

Casamento gay na Califórnia

Em outra decisão ansiosamente esperada, os juízes mantiveram uma decisão da Justiça californiana que permite que casais do mesmo sexo possam se casar no Estado.
Os nove magistrados validaram a decisão de uma corte de menor instância que havia derrubado a chamada Proposição número 8, uma proibição aprovada por eleitores californianos em um referendo votado poucos meses após a Suprema Corte do Estado ter legalizado estas uniões.
Representando dois casais homossexuais, os advogados Theodore Olson e David Boies processaram então as autoridades californianas, que decidiram se abster de defender a legislação no tribunal.
A defesa ficou a cargo de defensores da Proposição 8 – mas o Supremo americano considerou nesta quarta-feira que um grupo político privado não teria o direito de defender a constitucionalidade de uma lei.
Os juízes voltaram o processo para um momento anterior, resultando no aval a uma decisão de uma corte inferior californiana contra a iniciativa legislativa.
Comentando os dois casos, a maior organização LGBT (pelo direito de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) dos EUA, Human Rights Campaign, disse que as duas vitórias são "monumentais", mas continuam revelando "duas categorias" de cidadãos no país.
Para a organização, o Supremo se ateve a uma questão de "procedimento" ao julgar a Proposição 8, sem entrar no mérito constitucional das legislações que proíbem o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 30 unidades federativas americanas.
"Hoje celebramos a vitória dos californianos, mas amanhã voltaremos as nossas atenções para os milhões de indivíduos LGBT que não serão afetados por estas decisões"
Chad Griffin, presidente da ONG Human Rights Campaign
"Hoje celebramos a vitória dos californianos, mas amanhã voltaremos as nossas atenções para os milhões de indivíduos LGBT que não serão afetados por estas decisões", disse o presidente da ONG, Chad Griffin, que descreveu a existência de "duas Américas" para gays e lésbicas.
"Das montanhas rochosas ao sul ao coração do sul americano, é hora de promover a igualdade até que todo americano possa se casar com a pessoa que ama, e que todos os indivíduos LGBT tenham a garantia da proteção da igualdade sob a lei."

Igualdade distante

Se a Califórnia se tornar a 13ª unidade da federação a permitir o casamento gay nos EUA, 30% da população americana (ou cerca de 105 milhões de pessoas) viverá em jurisdições em que essas uniões são permitidas.
Mas, ao julgar a Doma, o Supremo não avaliou, por exemplo, outra parte da lei que desobriga os Estados a reconhecer as uniões gays realizadas nas jurisdições onde elas são legais.
Ou seja, um casal homossexual oriundo do Texas que se case em Nova York não terá seu matrimônio validado em seu Estado de origem, onde tal tipo de enlace ainda é proibido.
Observadores e ativistas apontam que a igualdade nesse campo ainda permanece um objetivo distante.
Barack Obama / AP
Defensor do casamento gay, Obama elogiou a decisão da mais alta corte dos EUA
Não está claro quantos casais gays poderiam se abster de pedir os benefícios federais se isto implicar, por exemplo, revelar o seu estado civil para empregadores.
Vinte e nove Estados americanos não têm nenhuma proteção legal para indivíduos LGBT, que continuam sujeitos, por exemplo, a serem demitidos ou rejeitados como inquilinos por causa de sua orientação sexual.
Um estudo do centro de estudos liberal Center for American Progress levantou histórias de gays e lésbicas que foram demitidos depois de serem "descobertos" ou contarem sobre sua orientação sexual para os seus chefes.
"Ironicamente, mesmo que o Supremo decidisse que a igualdade matrimonial é legal em todos os 50 Estados, os trabalhadores LGBT poderiam se casar com a pessoa que amam, mas ainda assim ser demitidos por manter nas suas escrivaninhas uma foto da sua família", escreveu em um artigo a especialista do instituto, Sally Steenland.

Políticos aceleram respostas a exigências das ruas

No rastro das manifestações populares que levaram milhares de pessoas às ruas do Brasil, Congresso e governo dão sinais de que vão acelerar as respostas a reivindicações dos manifestantes.
Temas relativos à corrupção na política e melhorias em Saúde, Educação e Transporte Público (neste caso, o reajuste das tarifas desencadeou os protestos) compõem o que políticos vêm chamado de "agenda postitiva".

A primeira vitória

A revogação dos reajustes do valor das passagens de ônibus foi a primeira vitória dos manifestantes. A prefeitura de São Paulo, principal cidade governada pelo PT, foi a primeira a recuar dos reajustes - e foi seguida por administrações municipais em todo o país.
Em seguida, a Câmara dos Deputados aprovou a destinação dos royalties do petróleo extraído na camada do pré-sal para Educação (75%) e Saúde (25%), contemplando demandas das ruas por mais investimentos nas duas áreas e o "padrão Fifa", como pediam cartazes irônicos nas manifestações, em alusão às exigências por padrões elevados para estádios de futebol - que deveriam ser usadas também nos serviços públicos..
A terceira vitória dos manifestantes veio com a derrubada da Proposta de Emenda Constitucional 37, a chamada PEC 37, na noite desta quarta-feira, que retirava do Ministério Público o poder de investigação.

O que está por vir

Agora, lideranças parlamentares dão sinais de que outras reivindicações entrarão em pauta do Congresso imediatamente, como o fim do voto secreto em algumas sessões parlamentares e o projeto que permite a chamada “cura gay”.
Os dois projetos tramitam na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. No caso da "PEC do Voto Aberto" - que acaba com o voto secreto nos processos de cassação de mandato, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), quer que seja aprovada ainda esta quarta-feira.
Já o decreto legislativo que derruba trechos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que impede profissionais de "tratarem" homossexuais, Alves quer que o texto, elaborado pelo deputado Marco Feliciano (PSC-SP), seja derrubado em plenário - e sepultado em definitivo.

Reforma Política

Foto: BBC
Reforma política também foi uma das principais reivindicações das ruas
Depois de reuniões com a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a Ordem dos Advogados do Brasil e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, o governo garantiu a realização de um plebiscito sobre a reforma política já em setembro, incluindo a chamada lei partidária e a lei eleitoral.
De acordo com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, as entidades trouxeram "uma agenda nova e interessante", e agora cabe ao Congresso aprovar a proposta de plebiscito.
"Só a participação popular vai superar o impasse", disse Mercadante, sobre os muitos projetos de reforma política enviados e negados pelo Congresso nas últimas duas décadas.
"Já amanhã (quarta-feira) entraremos em contato com Tribunal Superior Eleitoral para verificar as condições materiais para a realização do plebiscito. O objetivo é a brevidade porque qualquer mudança legal se faz sempre até um ano antes da vigência de qualquer eleição”, disse Marcadante a jornalistas.
A expectativa é de que a consulta popular seja realizada em setembro.

Saúde

Em seu pronunciamento em resposta às manifestações populares, a presidente Dilma Rousseff também confirmou a contratação de médicos estrangeiros para o Sistema Único de Saúde, medida que tem apoio da Frente Nacional de Prefeitos.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou na terça-feira a abertura de 12 mil vagas em cursos de especialização e de residência médica em hospitais públicos e filantrópicos até 2017 e a contratação, ainda este ano, de médicos estrangeiros para trabalharem nas regiões que não despertam interesse nos profissionais brasileiros.

Transporte

Em reunião com as lideranças da Frente Nacional de Prefeitos e com os governadores dos Estados, Dilma também propôs um pacto em torno da mobilidade urbana e investimentos da ordem de R$ 50 bilhões para mudar a matriz de transporte - com prioridade para ônibus, trens e metrô.
"Pela primeira vez o governo federal aceitou discutir novas desonerações e o uso dos recursos de um tributo federal para subsidiar a redução das tarifas de transporte público coletivo", disse o prefeito de Porto Algre, José Fortunatti (PDT), que preside a Frente, após encontro com Dilma.
No dia seguinte, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), controlada por governistas, aprovou em primeiro turno, por unanimidade, o projeto de lei que isenta o sistema público de transporte de taxas e contribuições.
De acordo com a proposta apresentada pelo relator, Lindbergh Farias (PT-RJ), que é também presidente da CAE, o governo isentaria também do PIS/Cofins o óleo diesel, gastos com metrô, trens, e máquinas e equipamentos no sistema de transporte.
Este ano, o Governo Federal já editou duas Medidas Provisórias que reduziram o ISS sobre a folha de pagamento das companhias de transporte público para 2% e zerou o PIS/Cofins dos serviços de transporte coletivo.

Inflação

Criticado pela piora nas contas pública e o impacto destas na inflação, o governo tem tentado reforçar a defesa da Responsabilidade Fiscal. Em seu pronunciamento, a presidente defendeu que as três esferas de governo cumpram metas fiscais e contenham o gasto público - apontado por analistas como vilão da inflação, por reduzir os investimentos de governo e inundar a economia com dinheiro.
Esta semana, o governo anunciou economia recorde no mês de maio para pagamento de juros da dívida, um sinal de maior controle das contas públicas.
Ainda preocupado com a inflação, o Banco Central anunciou na noite desta terça-feira mais uma medida para frear a alta do dólar em relação à moeda brasileira. O dólar mais caro reduz as importações e, por decorrência, a competição entre produtos importados e nacionais.
O BC acabou com o recolhimento compulsório sobre posições vendidas de bancos no mercado de câmbio, o que provoca venda de moeda no mercado, aumentando a oferta e contribuindo para reduzir as cotações.

Violência policial

Depois de repetidos episódios de violência policial durante as manifestações em todo o Brasil, com manifestantes e jornalistas sendo alvos de balas de borracha, este é um ponto que ainda permanece em aberto.
Em seu pronunciamento, a presidente Dilma defendeu o uso de força policial para coibir vandalismos, mas manifestantes continuam sinalizando excessos. Parte dos manifestantes também querem nova conduta policial nas ações em comunidades pobres e pedem o fim das Polícias Militares.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Proposta de Constituinte para reforma política enfrenta resistência e críticas

A presidente Dilma Rousseff causou surpresa na noite da última segunda-feira ao propôr – antes de uma reunião com governadores e prefeitos em Brasília – o que chamou de "cinco pactos" que buscam satisfazer parte das demandas dos manifestantes que tomam as ruas de diversas cidades do país há duas semanas.
Além de propostas para melhorar a educação, a saúde, a mobilidade urbana e a responsabilidade fiscal, a presidente sugeriu a polêmica convocação de um plebiscito que autorize "o funcionamento de um processo constituinte específico para fazer a reforma política".
A proposição foi alvo de críticas por parte de juristas e outros analistas, que veem impedimentos legais para a convocação de uma Constituinte tratando de um tema específico.
Na tarde desta terça-feira, uma nova surpresa: após uma reunião com Dilma, o presidente da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coelho, afirmou que a presidente teria voltado atrás sobre como fazer a reforma, dizendo que o governo estaria "convencido de que convocar Constituinte não é adequado porque atrasa o processo de reforma política".
Pouco depois, por meio de uma nota à imprensa, o Palácio do Planalto afirmou que a OAB apresentou à presidente uma proposta de reforma política baseada em projeto de lei de iniciativa popular, mas que Dilma "reiterou a relevância" de uma ampla consulta popular por meio de um plebiscito e que nenhuma decisão teria sido tomada.
"A presidenta ouviu a proposta da OAB, considerou-a uma importante contribuição, mas não houve qualquer decisão. O governo continuará ouvindo outras propostas de reforma política que lhe forem apresentadas", diz a nota.

Instabilidade

Com as diversas idas e vindas e a proposta de convocação de um plebiscito para autorizar um processo constituinte específico aparentemente ainda sobre a mesa, cientistas políticos consultados pela a BBC Brasil concordaram na avaliação de que a medida pode ser "prematura" e que pode trazer mais instabilidade para o país.
Na opinião de Fábio Wanderley Reis, cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a convocação de uma Assembleia Constituinte para fazer uma reforma política poderia acirrar ainda mais os ânimos das ruas.
"O clima geral é de turbulência e me parece que a proposta que a presidente está fazendo tenderia a agravar tal cenário"
Fábio Wanderley Reis, cientista político e professor emérito da UFMG
"O clima geral é de turbulência e me parece que a proposta que a presidente está fazendo tenderia a agravar tal cenário. Além de terem ganhado a reivindicação inicial, que tinha a ver com os preços das passagens, agora eles estariam ganhando nada menos que a convocação de uma Assembleia Constituinte para fazer a reforma política, assim, em um estalar de dedos", diz Reis, para quem a proposta poderia "turbinar a turbulência".
Na opinião de Reis, o movimento que vem tomando as ruas do país, embora tenha aspectos positivos, também teria uma propensão "anti-institucional" e "antipolítica" e que uma reforma política feita neste momento poderia refletir alguns desses aspectos.
"Eu acho que seria preciso uma atitude de maior firmeza em relação ao aspecto violento da coisa e um empenho em dar resposta ao que há de insatisfação legítima que o movimento expressa, o que não significa acolher essa disposição antipolítica que eventualmente pode se expressar, por exemplo, em uma reforma política que esteja muito condicionada a esse movimento. Então é preciso ir com calma nesse esforço de reforma política", afirmou.

Confusa

Ricardo Ismael, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-Rio, teme os efeitos que uma falta de um acordo quanto à legalidade de uma Constituinte sobre um tema específico e o real alcance que um eventual processo para alterar a Carta Magna possam ter.
"Me preocupa a sugestão de um plebiscito para uma Constituinte exclusiva, porque, de fato, essa medida parece que nem foi conversada com a base aliada do Congresso e, portanto, ela é uma proposta que é muito confusa", diz.
Na avaliação de Ismael, um eventual processo constituinte poderia "parar" o país, trazendo reflexos também para a economia e os investimentos. Além disso, haveria o risco de demandas por novos plebiscitos, tanto em âmbito nacional como nos Estados, a respeito dos mais diversos temas.
"Eu acho que a presidente Dilma toca na questão de novos recursos para a educação, fala da questão fiscal... mas quando ela coloca uma questão muito controversa, ela praticamente leva o debate para uma nova instabilidade. A instabilidade já é muito grande, no país já há muita tensão, então não é preciso ir para propostas em que ninguém sabe onde vai dar".
Ismael avalia que uma reforma política poderia ser encaminhada pelo próprio Congresso nos próximos meses. Para isso, bastaria que o recesso parlamentar fosse suspenso para que a reforma possa ser aprovada até o mês de setembro e assim já estar em vigor nas eleições de 2014.
"Se realmente é para fazer uma reforma política, teria uma caminho mais óbvio, que era tentar suspender as féria de julho do Congresso e votar a reforma política até 30 de setembro, porque aí ela pode realmente vigorar nas eleições de 2014. O Congresso poderia convocar um referendo, não um plebiscito, um referendo para ver se o povo concorda ou não com as propostas que iam ser fechadas até 30 de setembro", diz.

Prematura

Dilma Rousseff / AFP
Em pronunciamento na TV, Dilma Rousseff anunciou pacto de cinco pontos para fazer frente aos protestos
Por sua vez, a professora do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio Maria Celina D’Araujo avalia que tocar no assunto da constituinte para uma reforma política neste momento seria "precipitado", já que não há nem mesmo uma convergência entre os partidos ─ mesmo aqueles que fazem parte da base aliada ─ sobre quais seriam os pontos dessa reforma.
"Tocar nesse assunto agora acho que é meio precipitado. Isso não significa que a gente não tenha que ter no horizonte essa possibilidade. Agora qual a reforma política? Os partidos não se entendem sobre isso. O PT quer uma coisa, o PMDB quer outra, o PSDB quer outra", diz.
Para a professora, propor uma reforma política neste momento "desvia a atenção" sobre as principais demandas dos manifestantes, que dizem respeito a saúde, educação, transporte e corrupção.
Para ela, os problemas nessas áreas poderiam ser resolvidos com medidas para melhorar a gestão, a competência e estimular a transparência no setor público.
"(A reforma política) não é factível agora e, se for levada a efeito vai ser, do meu ponto de vista, motivo para mais confrontos políticos", afirma.

Movimentos

Procurados pela BBC Brasil, representantes dos principais movimentos que vêm organizando passeatas em São Paulo e no Rio não comentaram as propostas anunciadas pela presidente.
Gabriel Bragança, representante do Fórum de Lutas, que vem organizando protestos no Rio, afirmou que o movimento decide tudo por meio de plenárias abertas e que a questão ainda não foi discutida.
O grupo deve realizar uma plenária no Rio na noite desta terça-feira, mas ainda não há confirmação se a questão será discutida.
Já os representantes do Movimento Passe Livre de São Paulo não atenderam as ligações da reportagem nem retornaram os recados deixados na caixa-postal com pedidos de comentários sobre o assunto.

Investimento do Brasil em educação sobe e alcança média da OCDE

Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta terça-feira indica que o investimento do Brasil em educação aumentou de 3,5% para 5,6% do produto interno bruto (PIB) entre os anos 2000 e 2010, alcançando assim a média de investimento dos países da organização, que é de 5,4%.
Pertencem à OCDE 34 países, a maioria deles desenvolvidos, como França, Alemanha, Estados Unidos e Grã-Bretanha, e também nações emergentes, como México e Chile.
Divulgado nesta terça-feira em Bruxelas, o relatório Education at a Glance ("Educação em Revista", em tradução livre) afirma, no entanto, que o governo brasileiro investiu em média US$ 2.964 (aproximadamente R$ 6,6 mil) por estudante em 2010, contra US$ 8.382 (cerca de R$ 18,8 mil) nos países da OCDE.
O nível de investimento público do Brasil na educação em 2010 foi igual ao da Áustria, superior ao dos EUA (5,1% do PIB) e comparável com o da França (5,8%) e o da Grã-Bretanha (5,9%), mas ficou longe dos primeiros países da lista da OCDE. A Dinamarca dedicou 7,6% de seu PIB ao setor, a Noruega, 7,5% e a Islândia, 7%.
Entre os países da América Latina analisados no estudo, o Brasil tem o segundo maior nível de investimentos no setor, atrás da Argentina, que em 2010 destinou 5,8% do PIB à educação, mas à frente de México e Chile, com 5,1% e 3,9%, respectivamente.
A educação superior recebeu a maior parcela de gastos no Brasil ─ US$ 13.137 por estudante, mais que a média dos países da OCDE, de US$ 11.383, e mais que os US$ 12.112 dos Estados Unidos, onde 31% dos investimentos em educação são de fonte privada.
Por outro lado, os investimentos brasileiros em educação primária e secundária foram muito inferiores aos dos países ricos ─ US$ 2.653 por estudante, comparado com US$ 8.412 nos países da OCDE e US$ 11.859 nos EUA.

'Bons investimentos'

"Não há ligação direta entre o nível de investimento e a qualidade da educação. O que faz a diferença é a qualidade do investimento, não a quantidade. E o Brasil, nesses últimos anos, soube utilizar bem seus investimentos na educação", disse Eric Charbonnier, analista da OCDE, à BBC Brasil.
A organização considera que "durante a última década o Brasil provou que era capaz de melhorar sensivelmente o desempenho de seus alunos" combinando o aumento em investimentos com uma "divisão de gastos mais equilibrada que no passado".
"Os fundos federais são agora consagrados aos estados mais pobres, garantindo a seus estabelecimentos (de ensino) recursos similares aos dos estabelecimentos de estados mais ricos", diz o relatório.
O documento também destaca programas de formação para professores de todos os níveis, entre eles o "Universidade Aberta", programas de cooperação entre universidades federais e estabelecimentos municipais para intercâmbio de melhores práticas e a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2007.
Como resultado, a classificação do país no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) entre 2000 e 2009 melhorou 16 pontos no quesito compreensão escrita, 15 em ciências e 30 em matemática, apesar de que sua pontuação "continua muito inferior à média da OCDE".
Por outro lado, um ranking divulgado no ano passado pela consultoria Economist Intelligence Unit (EIU) colocou o Brail em penúltimo lugar entre 40 países no tocante à qualidade da educação.
O ranking foi compilado com base em testes de alunos realizados entre 2006 e 2010 e em outros critérios, como a quantidade de alunos que ingressam em universidades.

Protestos mostram apropriação de slogans publicitários para fins políticos

O uso nos recentes protestos das frases "Vem pra rua" e "O gigante acordou" ─ ambas slogans publicitários ─ pode ser explicado pela mobilização dos manifestantes por meio das redes sociais e mostra a apropriação das mensagens publicitárias para um contexto político, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
A campanha "#vemprarua", transformada em hashtag em sites de rede social como Twitter, Facebook e Instagram foi criada pela Fiat para a Copa das Confederações.
Mas a frase também saiu da internet para estampar cartazes exibidos em cidades de todo o país, ao lado de outro slogan publicitário, "o gigante acordou", que aparece em um video publicitário da marca de uísque escocesa Johnnie Walker lançado em outubro de 2011.
O vídeo, que na última semana passou a receber comentários de manifestantes exaltando os protestos em sua página do YouTube, mostra o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, levantando-se como um gigante, em alusão à ideia de que o Brasil é "um gigante adormecido".
Segundo um levantamento da empresa de relações públicas Grupo Máquina, entre os 19 e 21 de junho a expressão #vemprarua teve mais de 160 mil menções nas redes sociais e #ogiganteacordou, cerca de 100 mil.
"Um dos trabalhos da publicidade é sintetizar emoções e sentimentos que estão de alguma forma latentes em frases de efeito", disse o publicitário e pesquisador de mercado Adilson Batista, fundador da agência Today, à BBC Brasil.
"O filme da Johnnie Walker é bastante emocional e sintetiza um sentimento de orgulho nacional que já estava presente entre as pessoas. E a campanha do 'Vem pra rua' foi criada para a Copa das Confederações como muitas outras, mas provocou uma reação diferente nas pessoas porque trouxe a ideia da mobilização, principalmente pelo uso da frase como hashtag."

Postura crítica

A adoção dos slogans, no entanto, não significa que os manifestantes adotaram também o conteúdo das propagandas.
"A publicidade tem uma tendência a pintar as coisas de verde e amarelo para pegar carona no sentimento nacionalista e vender produtos em cima disso, mas as pessoas ‘ressignificaram’ tudo isso a partir de um sentimento de insatisfação, de que tem algo muito errado com o sistema vigente", disse o especialista em redes sociais Augusto de Franco, criador da Escola de Redes.
"A publicidade tem uma tendência a pintar as coisas de verde e amarelo para pegar carona no sentimento nacionalista e vender produtos em cima disso, mas as pessoas ‘ressignificaram’ tudo isso a partir de um sentimento de insatisfação, de que tem algo muito errado com o sistema vigente."
Augusto de Franco, especialista em redes sociais
Para Batista, o fenômeno mostra uma postura crítica dos brasileiros com relação aos conteúdos publicitários. "Acho que subestima a inteligência do brasileiro quem acha que ele não faz reflexão sobre as mensagens publicitárias. Tenho a sensação de que a gente têm vivido muitas micro manifestações dentro das redes sociais e elas usam o conteúdo de mensagens publicitárias o tempo inteiro", afirma.
"Há grupos que sempre se apropriam de frases publicitárias, muitas vezes criadas pelas próprias marcas, para reverberar suas mensagens de manifestação. As pessoas transformam (as campanhas) em vídeos satíricos de crítica social e em hashtags adaptadas. Isso acontece com mais força há cerca de quatro anos."
Após o início das manifestações em todo o país, um vídeo criado por usuários do YouTube mescla imagens do filme da Johnnie Walker com imagens dos protestos ─ a trilha sonora é a música da campanha da Fiat. O vídeo foi replicado por diversos usuários do site e teve cerca de 70 mil compartilhamentos.

Exterior

De acordo com Batista, o fenômeno é até internacional. Ele lembra que o nome do movimento americano "Occupy Wall Street" teve uma gênese semelhante ao brasileiro. A expressão que deu nome aos protestos foi criada pelos editores da revista anticapitalista Adbusters e popularizada em veículos de comunicação e nas redes sociais com a ajuda de uma agência de relações públicas.
Ele acredita, no entanto, que no caso brasileiro, as empresas não deverão aproveitar o uso de suas campanhas pelos manifestantes para se associarem aos protestos.
"Acho perigoso que as marcas abracem uma associação política, assim como foi quando os partidos tentaram se associar aos movimentos. Estamos vivendo um movimento que é muito maior do que se imagina. Qualquer associação de entidade ou marca pública ou privada vai ser repudiada nas redes sociais."
Em comunicado divulgado no dia 17 de junho, a Fiat afirmou que a campanha foi criada "com foco único e exclusivo na Copa e na alegria e paixão que o futebol desperta nos brasileiros". Até o momento, a Johnnie Walker não se pronunciou.

'Coincidências' da rede

A busca por identidade nos protestos

"Uma forma de ter identidade é incorporar na sua imagem certas marcas. O uso dessas hashtags ou usar a máscara do V pode ser uma dessas formas de se identificar como participante de algo."
Marco Aurélio Nogueira, cientista político da Unesp
Para o cientista político Marco Aurélio Nogueira, da Unesp, o uso dos slogans é uma "coincidência" própria da "cultura e da estrutura da vida em redes". "Acho que ninguém coordena esse processo. Vivemos em situações nas quais a gente vai pescando coisas isoladas e vai recontextualizando, criando novos sentidos", disse à BBC Brasil.
As escolhas individuais pautadas pelo mercado, de acordo com o pesquisador, também podem ajudar a explicar a associação entre propaganda e protesto. "As ruas e a publicidade estão muito conectadas, até porque as ruas estão muito mercantilizadas. Você vai para uma passeata e se produz, põe uma camiseta com um slogan, um boné de um tipo, uma fita verde e amarela."
"Não é que as pessoas queiram apenas exibir uma grife, é que elas também estão na rua segundo uma dinâmica de espetáculo. Não estão na rua só por uma causa, mas para serem vistas pelos fotógrafos, pelos amigos, para colocarem as fotos no Facebook", afirma.
"O marketing tem um peso grande, por conta de seu trabalho de encontrar fórmulas que sejam decodificadas pelas pessoas e criem uma conexão emocional. É por isso que tem tanta gente com essa máscara do V de Vingança (história em quadrinhos criada pelo britânico Alan Moore), mas a maior parte das pessoas não sabe nem a história da máscara, nem do V de Vingança."
Para o cientista político, a busca por uma identidade também facilita a adoção de frases e símbolos emblemáticos sem referência a demandas políticas específicas, diferentemente das frases usadas em movimentos como "Diretas Já", na década de 70, e "Fora Collor", nos anos 1990.
"Uma forma de ter identidade é incorporar na sua imagem certas marcas. O uso dessas hashtags ou usar a máscara do V pode ser uma dessas formas de se identificar como participante de algo. Eu não preciso nem falar, já estou mostrando que estou ali, que estou nessa. A partir daí, todos vão para a rua, em uma espécie de espasmo contestatório. E o movimento é mais aberto em termos de agenda."
Para Augusto de Franco, "coincidências" como a que uniu as duas campanhas publicitárias a uma das maiores ondas de manifestação na história do Brasil tendem a acontecer cada vez mais em um mundo conectado. "O que nós chamamos de coincidência é o processo viral de contaminação que caminha na rede. É isso o que as pessoas ainda têm dificuldade de entender", diz.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Condenação de Berlusconi pode fragilizar coalizão na Itália

O ex-primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, foi sentenciado nesta segunda-feira a sete anos de prisão e proibido de concorrer a cargos públicos por acusações de ter tido relações sexuais com uma garota de programa menor de idade.
Berlusconi, de 76 anos, recorre da sentença em liberdade. Tanto ele como a garota em questão, a marroquina Karima El Mahroug (conhecida como Ruby), negam ter tido relações sexuais.
O caso deve ter importantes ramificações políticas na Itália, segundo a avaliação de analistas. A condenação pode enfraquecer a coalizão de governo do atual primeiro-ministro, Enrico Letta, que depende do apoio do partido de Berlusconi, Povo da Liberdade (centro-direita).
Apesar de o ex-primeiro-ministro ter declarado sua lealdade a Letta, muitos analistas avaliam que ele pode se retirar da coalizão se concluir que não está recebendo o devido apoio por parte do governo.
De acordo com a agência de notícias Associated Press, apesar de ão ter nenhum papel oficial no governo atual, Berlusconi ocupa o cargo de senador e tem grande influência na já fágil coalizão de governo, firmada entre seus aliados e a centro-esquerda após eleições em fevereiro.

Festas 'bunga-bunga'

Berlusconi está envolvido em outros casos judiciais. Em outubro de 2012, ele foi condenado a quatro anos de prisão por fraude fiscal, sentença da qual também recorre.
Nesta segunda, ele foi condenado por ter pago para ter relações sexuais com Mahroug, em 2010, época em que ela tinha 17 anos, e por abuso de poder (por ter conseguido a libertação de Mahroug quando ela foi detida por um pequeno furto). "Vou resistir a essa perseguição, porque sou totalmente inocente", defendeu-se.
Já a Promotoria alega que as mulheres das famosas festas dadas por Berlusconi eram parte de um sistema de prostituição orquestrado para a satisfação pessoal do político.
Ainda que ter relações com prostitutas não seja crime na Itália, fazer sexo com menores de idade é crime punido com prisão.
Berlusconi só terá de cumprir a pena se a condenação for mantida em todo o longo processo de recursos na Justiça italiana. Mesmo assim, pode não precisar cumprir a pena pelo fato de a Justiça oferecer benefícios para pessoas com mais de 70 anos.

Supremo dos EUA ordena análise ‘rigorosa’ de ações afirmativas

A Suprema Corte americana devolveu nesta segunda-feira um caso de ação afirmativa para um tribunal de menor instância, reafirmando o princípio de que as medidas tomadas nesse sentido devem passar por um "escrutínio rigoroso" antes de serem aplicadas.
A decisão se refere à disputa entre uma ex-estudante branca, Abigail Fisher, que teve sua candidatura à Universidade do Texas, em Austin, rejeitada em 2008 com base no programa de ação afirmativa da escola.
O caso provocou um significativo debate nos Estados Unidos sobre a questão de como fazer avançar a igualdade racial no país.
Diferentemente das universidades no Brasil, as americanas não podem estipular cotas numéricas para seus estudantes com base na cor da pele.
Mas é comum que, com vistas a construir um corpo discente diverso, as instituições façam deste um critério de admissão a ser considerado. Este meio termo foi estabelecido por um julgamento anterior do Supremo americano, Grutter x Bollinger, de 2003.

Diversidade x legitimidade

O tribunal de apelação que julgou a disputa entre Abigail Fisher e a UT-Austin usou os princípios de Grutter x Bollinger para concluir que a universidade tem o direito de definir os seus próprios interesses no que tange à diversidade estudantil, criando para isso os mecanismos que achar necessários.
Entretanto, nesta segunda-feira, o Supremo disse que o julgamento foi "incorreto" porque deixou de submeter o programa da UT-Austin a um "escrutínio rigoroso", conforme outro julgamento de 1978 do corpo de magistrados, Universidade da Califórnia vs Bakke.
"Escrutínio rigoroso é uma examinação ativa (dos critérios de admissão da universidade) e o governo tem o ônus de provar ‘que as razões de qualquer classificação (racial) são claramente identificadas e inquestionavelmente legítimas’", escreveu o magistrado Anthony Kennedy, explicando a posição de sete dos oito juízes que votaram no caso.
"As cortes inferiores foram corretas" ao conceder que a UT-Austin possui a "experiência e o conhecimento em relação à sua missão educacional", avaliaram os juízes.
"No entanto, a Universidade precisa provar que as maneiras escolhidas para alcançar essa diversidade sejam estritamente formatadas para alcançar este objetivo."

Fuga de ex-técnico da CIA acirra tensões diplomáticas

A cada parada que Edward Snowden faz tentando escapar de autoridades americanas, abre uma potencial frente de tensões diplomáticas com os Estados Unidos.
Ex-funcionário da CIA - onde trabalhou como técnico em segurança digital- Snowden delatou um sistema secreto de monitoramento de informações pessoais nos quais agentes da Agência Nacional de Segurança americana (NSA, na sigla em inglês) teriam acesso direto a servidores de nove grandes empresas de internet, incluindo Google, Microsoft, Facebook, Yahoo, Skype e Apple.
Para escapar de um processo, no início de maio Snowden fugiu do Havaí, onde morava, para Hong Kong - de onde teria denunciado o esquema de espionagem para o jornal britânico The Guardian e o americano Washington Post.
Há alguns dias, o ex-funcionário da CIA permitiu que o Guardian revelasse sua identidade, o que permitiu que uma investigação criminal fosse aberta contra ele na Justiça americana.
Os Estados Unidos oficializaram, então, um pedido de extradição contra Snowden, mas ele conseguiu viajar para Moscou na manhã de domingo e, nesta segunda-feira, o chanceler equatoriano Ricardo Patiño confirmou que teria pedido asilo a seu país.

Trajeto

Ainda não está claro quais serão as consequências das viagens do técnico em segurança para as relações diplomáticas entre os EUA e a China, a Rússia e o Equador.
De acordo com analistas, Hong Kong permitiu que Snowden deixasse seu território aproveitando uma brecha técnica da formulação do pedido de extradição. A solicitação foi feita sem que um mandado de captura internacional fosse entregue à Interpol.
Autoridades de Hong Kong pediram a Washington mais detalhes sobre as acusações contra Snowden e, nesse meio tempo, ele viajou para a Rússia.
Segundo a agência de notícias Reuters, nesta segunda-feira a Casa Branca expressou "fortes objeções" a Hong Kong e à China por deixarem Snowden escapar.
Hong Kong tem o status de Região Administrativa Especial da China desde 1997 e detém certa autonomia administrativa e econômica.
Pequim responde por sua política externa e de defesa, mas parece ter deixado para a ex-colônia britânica e seu sistema legal o ônus da decisão sobre o ex-funcionário da CIA, no que analistas interpretaram como uma tentativa de evitar o confronto direto com os EUA.

Rússia

No caso da Rússia, até a manhã desta segunda-feira, o governo não havia respondido oficialmente às pressões de Washington pela captura do americano.
"Esperamos que o governo russo olhe para todas as opções disponíveis para extraditar Snowden para os EUA, onde ele deve responder na Justiça pelos crimes dos quais é acusado", pediu Caitlin Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional americano.
As relações bilaterais entre Washington e Moscou já estão tensionadas por causa das diferenças sobre como proceder em relação ao conflito sírio.
Por isso, não é surpresa que autoridades russas tenham feito declarações indicando uma falta de disposição em colaborar nesse caso, nas quais também citaram a recente aprovação da chamada lei Magnitsky - que congela os ativos de russos acusados de violações aos direitos humanos.
"Os laços (entre os Estados Unidos e a Rússia) estão em um estágio complicado e numa fase como essa, em que um país está tomando medidas hostis em relação ao outro, porque os EUA esperariam qualquer entendimento por parte da Rússia?", disse, segundo a Reuters, Alexei Pushkov, presidente do comitê de política exterior da câmara baixa do Parlamento russo.

Equador

Aparentemente, o plano inicial de Snowden seria chegar ao Equador passando por Cuba e Venezuela.
Ele teria chegado a comprar um bilhete para o voo SU150 que sairia de Moscou para Havana nesta segunda-feira. No entanto, segundo a agência de notícias Associated Press (que atribuiu a informação a um representante da companhia aérea Aeroflot), quando o avião para Havana decolou, o assento do americano estava vazio.
No início da tarde, a agência de notícias russa Interfax divulgou que, segundo uma fonte "familiar com a situação", o ex-funcionário da CIA já teria deixado a Rússia em outro avião. A informação, porém, não foi confirmada.
Ao revelar o esquema de espionagem da NSA - para quem prestava serviços - Snowden justificou-se dizendo estar defendendo a "liberdade das pessoas em todo o mundo" e lutando contra a "opressão".
Ele alega que é um "perseguido político" e provavelmente decidiu pedir asilo ao Equador porque, embora o país tenha um tratado de extradição com os EUA, ele não se aplica no caso de perseguições políticas.
O governo do Equador mantém uma forte retórica anti-imperialista e já concedeu asilo ao criador do site WikiLeaks, Júlio Assange, que atualmente se encontra refugiado na embaixada equatoriana em Londres.
Uma eventual concessão de asilo também a Snowden azedaria ainda mais as relações bilaterais entre Quito e Washington.

Em protestos no Acre, polícia é exaltada em cartazes e slogans

A onda de manifestações que se espalhou pelo país resultou no Acre em um forte movimento de apoio à polícia - ao contrário do que vem ocorrendo em muitas capitais, onde as forças de segurança são alvo de críticas, pedradas e disparos de fogos de artifício. Um protesto ocorrido no sábado mostrou a insatisfação dos moradores com a corrupção e a mudança de fuso horário no Estado.
Nada de confrontos com tropas de choque, gás lacrimogêneo ou balas de borracha. Na manifestação que reuniu 20 mil pessoas em Rio Branco, um órgão de segurança - a Polícia Federal - foi a instituição mais enaltecida nos cartazes e slogans exibidos pelos manifestantes. Isso foi motivado pelo papel de seus agentes nas investigações de um escândalo de corrupção que supostamente envolve membros do governo estadual.
Havia até cartazes com dizeres como: "Obrigado Polícia Federal", e "O Acre agradece ao trabalho da Polícia Federal". E slogans como "Polícia, Polícia, Polícia Federal, prende todo mundo pra nação ficar legal".
Em maio, a Polícia Federal realizou uma operação batizada de "G7", que resultou na prisão de secretários e empreiteiros acusados de desvio de verbas públicas.
Ao todo, 15 pessoas foram presas –incluindo o sobrinho do governador Tião Viana (PT), Thiago Paiva – e 29 foram indiciadas. De acordo com a polícia, um grupo de sete empreiteiras teria se reunido em cartel para dominar as licitações e eliminar a concorrência em obras públicas.
Manifestante exibe cartaz sobre escândalo de corrupção (Fábio Pontes - BBC Brasil)
Operação G7, que investigou escândalo de corrupção, foi tema de cartazes de gritos de ordem
Em seis contratos analisados foi apurado o desvio de R$ 4 milhões. O foco de atuação do G7, segundo a PF, estava no Ruas do Povo, programa de pavimentação e saneamento básico nas 22 cidades do Acre.
Já Thiago Paiva está sendo acusado de desvio de verbas do Sistema Único de Saúde (SUS). A polícia diz que, em parceria com um empresário, Paiva, que ainda continua como diretor de análises clínicas da Secretaria de Saúde, estaria autorizando a realização de exames sem pacientes para receber verbas do SUS.
"Tudo isso estava acontecendo bem debaixo de nosso nariz e foi preciso a Polícia Federal entrar no caso para combater os corruptos e colocá-los na cadeia. Imagina se no Acre não houvesse a atuação de instituições sérias como a Federal? Estaríamos perdidos", diz o estudante história Cláudio Nunes, de 21 anos.
Referências à operação G7 estavam entre as expressões mais comuns vistas nos cartazes pintados pelos manifestantes. Eles se mobilizaram por meio das redes sociais numa ampla campanha de divulgação e convite.

'O Acre existe'

A grande maioria dos mais de 20 mil presentes ao protesto eram jovens.
"O Acre Existe. E tem corrupção", dizia uma das faixas. A frase expressa o que muitos acreanos identificam como sendo um sentimento de rejeição do Brasil pelo Estado amazônico, com piadas recorrentes sobre a possível inexistência do Estado.
Outra bandeira levantada pelos acreanos foi o seu polêmico fuso horário. Até 2008 eram duas horas de diferença em relação a Brasília, mas foi reduzida para uma hora, por meio de projeto de lei, aprovado sem consulta popular, pelo então senador e hoje governador Tião Viana.
Manifestantes em frente ao Palácio Rio Branco, sede do governo estadual (Fábio Pontes - BBC Brasil)
Manifestantes também protestaram contra troca de fuso horário
Em 2010 a população foi às urnas em referendo e decidiu pela volta do antigo fuso. Passados mais de três anos, a opção expressa pelo povo acreano ainda perambula pelo Congresso Nacional por meio de um projeto de lei que ainda não foi votado.
Uma das faixas carregadas por manifestantes dizia: "Ditadura: mudar a hora sem ouvir o povo". Outra afirmava: "Golpe: negar ao povo o referendo da hora", se lia em outra faixa. A passeata parou o centro de Rio Branco e seguiu pacífica. A polícia acompanhou de longe. E alguns poucos policiais atuaram para organizar o trânsito.
Um ou outro ato de vandalismo foi repreendido pela multidão. Um das poucas marcas de depredação do patrimônio público foi a pichação no muro do Palácio Rio Branco que dizia: "Fora PT".
"No caso muito particular do Acre, este evento satisfez a vontade do acreano de se impor e falar, de recolocar governo e governistas no lugar de ouvintes dos clamores das ruas", analisa a socióloga Letícia Mamed, da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Prefeitos devem pedir a Dilma redução de impostos sobre transporte coletivo

Representantes do Movimento Passe Livre (MPL) e prefeitos das capitais se reúnem nesta segunda-feira com a presidente Dilma Rousseff em Brasília, às 14h e 16h, respectivamente, para discutir, entre outros assuntos, a tarifa zero e a isenção de tributos para o transporte coletivo, e ainda a contratação de médicos estrangeiros, no caso dos prefeitos.
Os encontros marcam o início da resposta da Presidência da República às manifestações que vêm ocorrendo no Brasil, desencadeadas a partir de protestos contra o aumento da tarifa de transporte público e marcadas pela ausência de partidos políticos e pela forte mobilização através de redes sociais.
Em pronunciamento em cadeia nacional na sexta-feira, a presidente havia prometido conversar "nos próximos dias, com os chefes dos outros poderes para somarmos esforços" e "receber os líderes das manifestações pacíficas".
De acordo com a presidente, o foco destes encontros seria elaborar o Plano Nacional de Mobilidade Urbana, "que privilegie o transporte coletivo".
Ela também indicou que defendia a aplicação "de cem por cento dos recursos do petróleo para a educação" e que pretende "trazer de imediato milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do Sistema Único de Saúde, o SUS".

'Surpresa'

Em carta aberta à presidente, o MPL afirmou estar surpreso com o convite para a reunião.
"Esse gesto de diálogo que parte do governo federal destoa do tratamento aos movimentos sociais que tem marcado a política desta gestão. Parece que as revoltas que se espalham pelas cidades do Brasil desde o dia seis de junho tem quebrado velhas catracas e aberto novos caminhos", diz a carta, publicada no site do movimento.
Já os prefeitos terão uma reunião preparatória ao meio-dia com o objetivo "de discutir e aprovar os encaminhamentos que serão levados para a agenda com presidenta da República", segundo o site da Frente Nacional de Prefeitos.
"Temos que unir esforços para trabalhar por um Brasil mais justo, mais inclusivo, com oportunidades para toda a população. Por isso, a FNP lidera propostas como a atração de médicos estrangeiros, luta pela aprovação do Reitup (Regime Especial de Incentivos para o Transporte Coletivo Urbano e Metropolitano de Passageiros) e defende a incidência da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre a gasolina e o álcool para a constituição de um fundo que financie o transporte público coletivo, barateando ainda mais as tarifas", defendeu o presidente da FNP e prefeito de Porto Alegre (RS), José Fortunati.
A Frente defende a volta da Cide somente para carros de passeio - o que significaria um desestímulo ao transporte individual - e a destinação integral da contribuição a um fundo para melhorias no transporte público de massa.
Anteriormente, os recursos angariados pela Cide entravam no caixa geral da União e não tinham destinação específica.

Bilhete único

Os prefeitos querem que o governo use a base de apoio no Congresso para acelerar a votação do Regime Especial de Incentivos para o Transporte Coletivo Urbano e Metropolitano de Passageiros (Reitup), que tramita há 10 anos.
O Reitup reduz ou elimina a cobrança de impostos em cascata aplicados ao transporte coletivo, como ISS, ICMS e Cofins, entre outros, a exemplo da desoneração já aplicada aos produtos da cesta básica.
O Regime Especial só pode existir nas cidades onde há um Conselho Municipal de Usuários do Transporte Público, com representantes da sociedade civil, da academia, da prefeitura e dos empresários. Este conselho é responsável por avaliar toda a planilha de custos do sistema, garantindo transparência.
Outra contrapartida ao Regime é a implementação do bilhete único, que integra os transportes coletivos urbanos.
A FNP também apóia a contratação de médicos estrangeiros. Mais de 2.500 prefeitos de todo o país assinaram um documento entregue ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pedindo a adoção de medidas imediatas para a contratação desses profissionais.

Divergência

O MPL concorda com o retorno da Cide e a criação de um fundo público.
"O governo federal precisa tomar a frente no processo de construção de um transporte público de verdade. A municipalização da CIDE, e sua destinação integral e exclusiva ao transporte público, representaria um passo nesse caminho em direção à tarifa zero", defende o movimento.
No entanto, o MPL condena a reduçaõ de impostos para empresas de ônibus.
"Abrir mão de tributos significa perder o poder sobre o dinheiro público, liberando verbas às cegas para as máfias dos transportes, sem qualquer transparência e controle", dizem os representantes do movimento, em carta aberta à presidente.

domingo, 23 de junho de 2013

Legado de colaboração em protestos inspira novas empresas no Egito

Das manifestações de protesto como as que se tem visto no Brasil e em outros países, pode-se tirar algumas lições importantes. A primeira delas é que o povo, aglutinado em uma multidão, pode conseguir qualquer coisa que deseja. A segunda é que é necessário haver redes de comunicação e colaboração capazes de convocar, reunir e ativar essa multidão.
No Egito, os protestos que acabaram levando à queda de um regime que se mantinha no poder há 30 anos, causaram também um impacto menos aparente - acabaram se tornando o catalisador da criação de um enorme número de novas empresas de tecnologia em todo o país, as chamadas start-ups.
Agora, um grande número de jovens egípcios se dedica a reconstruir o país, não tijolo por tijolo, mas byte por byte.
Inspirados pelos princípios das manifestações de rua que acabaram levando à revolução que destronou o governo, inúmeras dessas novas empresas de informática se utilizam da noção de colaboração mútua e poder da multidão que orientaram os protestos.
Chamadas de graça
Para uma destas start-ups, a ideia do negócio nasceu entre os milhares de manifestantes que se comprimiam na Praça Tahrir, no centro da cidade do Cairo, para protestar contra o governo do então presidente, Hosni Mubarak.
A tecnologia Bluetooth permitiu a criação de uma rede independente na Praça Tahrir
"O governo tinha cortado a internet e todas as redes de comunicação em todo o país," relembra Mohammad Omara, um designer de chips semicondutores.
A ação do governo ameaçava a espinha dorsal do movimento, à medida que tirava dos manifestantes a capacidade de disseminar suas ideias rapidamente.
Omara conta que começou a pensar numa forma de manter as pessoas conectadas.
Sua conclusão foi apelar para a tecnologia Bluetooth, disponível em praticamente todos os telefones celulares, computadores e outros aparelhos que se comunicam remotamente a curta distância.
"Com Bluetooth, eu posso conectar meu celular com o seu, onde quer que você esteja, e imediatamente estabelecer uma linha de comunicação" diz ele.
O desafio de usar Bluetooth para conectar a multidão era imenso. O alcance é limitado a apenas uns 20 metros - e é idealizado para conectar apenas dois aparelhos de cada vez. Ele precisava encontrar um jeito de ao mesmo tempo cobrir toda a área da Praça Tahrir e construir uma rede efetiva.
Dois anos após as manifestações, a empresa criada por Omara oferece um aplicativo que ulitiza algorítimos inteligentes e permite que dispositivos Bluetooth recebam e façam ligações sem a necessidade de decodificá-las.
O aplicativo pode ser adquirido por US$5 (cerca de 11 reais) e fornece uma cobertura de até 300 metros quadrados.
Me liga: O novo aplicativo vai permitir que usuários façam ligações de graça de seus celulares
A empresa está desenvolvendo um aplicativo que vai permitir que os usuários façam ligações de graça pela rede, transformando os celulares numa espécie de walkie-talkie, conectando com outros celulares num raio limitado.
E poderá também acabar com o problema de sobrecarga enfrentado pelas operadoras de redes em situações de superlotação que provocam um nível elevado de acessos simultâneos.
Cerca de 4% de todas as ligações de celulares são feitas por usuários que estão geograficamente perto uns dos outros, como aconteceu na Praça Tahrir, por exemplo, lembra Omara.
Mente aberta
A empresa de Omara é apenas um dos muitos exemplos que mostram uma nova cultura empresarial criada no país quase que como um subproduto das manifestações.
Ahmed Alfi, presidente da Sawari Ventures acredita que "o talento tecnológico disponível no Egito agora conta também com gente com mente aberta, capaz de criar um produto, e com um mercado pronto para absorvê-lo". E isso, segundo ele, foi graças à instauração dessa mentalidade de cooperação a partir das manifestações.
Criada por dois jovens de 22 anos, recém-formados em Engenharia Eletrônica pela Univerisdade do Cairo, a empresa Instabug é outra start-up que exemplifica esse espírito de colaboração.
Os fundadores da Instabug, Omar Gabr (à esquerda) e Moataz Soliman
Observando que durante os protestos, os manifestantes sacudiam seus celulares com raiva sempre que perdiam o sinal de contato, eles resolveram desenvolver um programa para estimular os usuários a comunicar às empresas criadoras de apps sempre que houver um mal funcionamento do aplicativo.
"Basta sacudir o celular", diz Moataz Soliman, um dos fundadores da empresa. Ele acredita que quando o usuário fica irritado por não obter o que espera do aplicativo a primeira coisa que faz é balançar o aperelho com raiva. "É uma reação natural!", diz ele.
O balanço do aparelho faz com que uma mensagem escrita na tela pelo próprio usuário seja automaticamente enviada à empresa indicando a ocorrência do mal funcionamento no programa utilizado o que permite que os programadores comecem a corrigir o aplicativo imeditamente.
O aplicativo permite que o usuário indique o erro escrevendo na própria tela do celular
"É muito difícil para as empresas obter esse tipo de informação, que é muito valiosa", acrescenta Soliman. Ele diz que os usuários dificilmente se sentem motivados a preencher formulários comunicando o erro.
Participação coletiva
Mas o espírito de colaboração presente nas start-ups egípcias vai além de conectar a massa de manifestantes e de consertar erros de programação.
Para tentar combater a crescente disparidade educacional existente no país, Mostafa Farahat, um dos fundadores da start-up Nafham, quer construir a maior plataforma educacional em vídeo online do mundo árabe.
"Temos 18 milhões de estudantes. Já estamos superlotados, mas em 2017 teremos um deficit de 700,000 cadeiras", diz Farahat.
Cada vez mais comum nos países ocidentais, os cursos online estão ainda pouco disponíveis na língua árabe. Apenas 1% do conteúdo existente se encontra disponível em árabe, um idioma usado por mais de 300 milhões de pessoas.
A Nafham, que em árabe significa "nós compreendemos", criou um modelo pioneiro chamado de ensino de massa, que incentiva os estudantes a filmar e carregar na rede, eles próprios, as lições em formato de vídeo.
"Não queremos que o aprendizado ocorra numa via de mão única," diz Farahat. "Queremos estimular as pessoas a fazerem os próprios vídeos."
Depois de avaliados, os vídeos passam a integrar o currículo da rede de ensino público do Egito.
A menina Lara Hossam, de 14 anos ,criou um vídeo para uma aula de geografia
Os alunos competem mensalmente por prêmios que incluem computadores, tabletes, câmeras fotográficas e filmadoras digitais, que por sua vez vão colaborar para melhorar a qualidade do material que produzem.
Farahat acrescenta que a plataforma vai ajudar a eliminar a necessidade dos pais de contratarem professores particulares para seus filhos, o que atualmente representa um gasto anual de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões às famílias egípcias.
Em apenas três meses, os estudantes já fizeram upload de mil vídeos no site.
Lara Hossam, de 14 anos, fez o upload de um gráfico que explica as características demográficas do deserto egípcio, para ser usado por quem tiver perdido a aula de geografia.
É essa mentalidade de participação coletiva e colaboração que está por trás deste boom das start-ups no Egito, e que tem se destacado mundialmente.
Agora, muitos jovens revolucionários egípcios estão buscando formas de mudança para o país além de simplesmente tirar os políticos de sua confortável acomodação. Eles querem também acabar com a "mesmice" no mundo dos negócios.
"Temos que pensar de modo diferente, encontrar soluções alternativas," acrescenta Farahat.

Protestos globais crescem com perda de fé na política e no Estado, diz 'Observer'

Uma reportagem publicada na edição deste domingo do jornal britânico The Observer afirma que as manifestações que vêm ocorrendo na Turquia, no Brasil e em diversos outros países têm em comum o fato de serem "virais, organizadas de forma flexível, com mensagens soltas e a maior parte acontecendo em espaços públicos urbanos''.
O texto, assinado pelo editor de Internacional do jornal semanal, Peter Beaumont, acrescenta que, diferentemente do movimento de 1968 ou mesmo do que levou ao colapso do império soviético no Leste Europeu em 1989, o movimento atual "tem poucos líderes reconhecíveis e muitas vezes ideologias conflitantes".
De acordo com Beaumont, "os pontos de referência não são necessariamente ideológicos, mas se inspiram em outros protestos, entre eles os vistos na Primavera Árabe e no movimento Occupy. Como resultado, houve uma onda de movimentos sociais - alguns de vida curta - de Wall Street a Tel Aviv, de Istambul ao Rio de Janeiro, muitas vezes envolvendo membros da sociedade mais jovens, mais educados e de maior renda".
As diferentes bandeiras do movimento no Brasil são um exemplo do que o autor diz ser a "a difícil categorização" dessa nova forma de protestos.

Mudança de humor

Segundo o texto do Observer, no Brasil os manifestantes "estão expressando uma série de exigências que vão desde reformas de educação até passes livres em ônibus, enquanto denunciam os dólares gastos pelo poder público em estádios para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas dois anos depois".
A reportagem afirma que o Brasil não se encaixa no perfil do país com potencial para grandes movimentos de massa no momento, já que "o desemprego entre os jovens está a um nível baixo que é recorde e o país promoveu o maior salto em seu padrão de vida na história do país".
Mas, afirma, a enquete Edelman Barômetro de Confiança, que avalia a confiança da opinião pública de diferentes países em suas instituições, mostrou em 2011 que Estados Unidos e Grã-Bretanha estavam entre os mais céticos em relação às suas instituições, ao passo que o Brasil estava no topo da lista dos mais crédulos.
Mas que na enquete realizada neste ano, o Brasil caiu 30 pontos na tabela, e que a Espanha e a Turquia, que também contou com manifestações em 2013, também passou a engrossar a categoria dos mais céticos.

Brasil obtém vitória em campo e certo alívio nas ruas de Salvador

O Brasil conseguiu uma vitória dentro de campo e um certo alivio fora dele, neste sábado em Salvador. Dentro da Arena Fonte Nova, a seleção nacional bateu a Itália por 4 a 2 e garantiu o primeiro lugar no grupo A da Copa das Confederações.
Do lado de fora, os grandes e violentos protestos que marcaram a passagem da seleção por Brasília e por Fortaleza, nas duas primeiras rodadas da competição, não se repetiram em Salvador – pelo menos não na mesma escala. Grupos menores entraram em confronto com a polícia em ao menos dois pontos da cidade.
A redução do tamanho dos protestos pode indicar que situação está melhorando. Isso traz um certo alívio para os organizadores do evento, após os rumores da véspera sobre o possível cancelamento do torneio, desmentidos pela Fifa.
Na quinta-feira, Salvador havia sido palco de um dos mais violentos protestos até agora durante a competição. Enquanto o Uruguai batia a Nigéria dentro da Fonte Nova naquele dia, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas. Dois ônibus da Fifa foram apedrejados durante a manifestação, assim como a fachada de um hotel onde estão hospedados membros da entidade.
Neste sábado, o clima na cidade antes do jogo foi de tranquilidade. Pouco mais de três mil pessoas marcharam de forma pacífica longe da Arena Fonte Nova.
A poucos minutos do início da partida, era possível observar famílias passeando tranquilamente pelo Dique do Tororó, que fica em frente ao estádio. Os torcedores conseguiram chegar à Fonte Nova sem percalços, ao contrário das dificuldades enfrentadas por alguns nos jogos anteriores.
Contudo, no mesmo local logo após o início do jogo, um grupo de manifestantes entrou em confronto com a polícia. Eles teriam atacado uma barreira policial com pedras e fogos de artifício. Foram, porém, contidos pelos policiais e acabaram se dispersando.
No início da noite, já após a partida, um grupo diferente formado por ao menos 500 manifestantes se reuniu em frente ao shopping Iguatemi - a cerca de oito quilômetros do estádio. Eles teriam disparado fogos de artifício contra a polícia, incendiado uma caçamba de lixo e destruído um ponto de ônibus e os vidros de uma agência bancária.
A polícia chegou ao local e dispersou o grupo com bombas de gás lacrimogêneo. Três pessoas foram presas portando coquetéis Molotov.
Divisões na organização dos protestos, o cansaço com a violência verificada em algumas manifestações, a promessa de diálogo e de reformas no discurso da presidente Dilma Rousseff e até mesmo um feriado prolongado foram apontados como a principal razão para a ausência protestos de larga escala em Salvador neste sábado.

Em campo

Hulk disputa com Mattia De Sciglio (foto: Getty)
Vitória na Fonte Nova mantém invencibilidade do Brasil na Copa das Confederações
Dentro de campo, o Brasil conseguiu uma vitória convincente sobre a Itália, mantendo uma invencibilidade que já perdura desde a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, quando a seleção de Telê Santana, Zico, Sócrates e Falcão foi desclassificada após perder por 3 a 2 da Itália de Paolo Rossi.
Com a partida deste sábado, são sete os jogos entre os dois times disputados desde aquela ocasião, com quatro vitórias brasileiras e três empates.
Com a vitória deste sábado, o Brasil também se manteve invicto em atuações na Fonte Nova. Antes da reconstrução do estádio para a Copa do Mundo do ano que vem, a seleção brasileira havia disputado 11 partidas na Fonte Nova, com sete vitórias e quatro empates.
Ao terminar primeira faze na primeira colocação do grupo A o Brasil vai enfrentar um adversário teoricamente mais fraco na semifinal na quarta-feira – em Belo Horizonte.
O treinador da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, disse que o resultado do sábado dá mais confiança à equipe e atrai a empatia do torcedor. "Falta muita coisa, mas estamos no caminho certo", disse ao sair do gramado.
Ele afirmou que o esquema de jogo do Brasil já está definido, mas alguns ajustes ainda serão feitos. "O padrão de jogo está definido, mas temos coisas a ajustar, especialmente quando estamos à frente do resultado, precisamos saber como nos comportar".

sábado, 22 de junho de 2013

Manifestantes e polícia entram em confronto próximo ao Mineirão

Manifestantes e policiais entraram em confronto em Belo Horizonte próximo ao estádio do Mineirão, onde acontecia o jogo entre Japão e México pela Copa das Confederações. Grandes protestos também foram registrados no Rio Grande do Sul, São Paulo e Salvador, entre outras capitais.
Segundo a polícia mineira, mais de 66 mil manifestantes seguiram em marcha no início da tarde em direção ao Mineirão. O grupo inicial se dividiu, mas milhares de manifestantes seguiram em direção ao estádio.
Eles teriam lançado fogos de artifício e pedras em direção a um bloqueio montado por policiais. A polícia respondeu lançando bombas de gás lacrimogênio.
Os manifestantes se afastaram da barreira, mas não se dispersaram completamente. Eles tentaram novas investidas contra o bloqueio, mas foram reprimidos.
Em meio à confusão, um grupo de manifestantes invadiu e depredou lojas e uma concessionária de veículos. A tensão permanecia elevada na região.
O confronto ocorreu um dia após a presidente Dilma Rousseff fazer um pronunciamento à nação pedindo diálogo com os manifestantes e prometendo um pacto com prefeitos e governadores para melhorar as áreas de transportes, educação e saúde.
Em Salvador, palco do jogo entre Brasil e Itália, milhares de manifestantes marcharam a partir do Campo Grande e da Avenida ACM, sem avançar sobre a Arena Fonte Nova – onde ocorre a partida. Contudo, um grupo seguiu para o estádio e acabou entrando em confronto com policiais.
No Rio Grande do Sul, cerca de dois mil manifestantes se concentraram em Uruguaiana e bloquearam a ponte que liga o Brasil e a Argentina. Na cidade de Santa Maria, um protesto reuniu mais de 18 mil pessoas, segundo a polícia. Também houve protestos em diversas outras cidades, como Cruz Alta, Encantado e Guaíba.

PEC 37

Em São Paulo, milhares de manifestantes fecharam os dois sentidos da Avenida Paulista na tarde deste sábado. Eles protestam contra a PEC 37, a Proposta de Emenda Constitucional que pode acabar com o poder de investigação do Ministério Público. Até o fim da tarde o ato era pacífico.
O Rio de Janeiro, ativistas fizeram um protesto na praia de Copacabana pedindo que o governo se empenhe nas áreas de saúde, educação e segurança da mesma forma que se esforça para organizar a Copa do Mundo de 2014.
Eles espalharam 500 bolas de futebol pintadas com cruzes vermelhas pela areia. Elas representavam os homicídios ocorridos no Brasil nos últimos 10 anos. O grupo também lnaçou na internet uma página chamada “Brasil Padrão Fifa”.
Também ocorreram manifestações no Distrito Federal, Rondônia e Maranhão.

De 'discurso vazio' a 'falou bem': mídias sociais reagem à fala de Dilma

Desde a noite de sexta-feira, o discurso da presidente Dilma Rousseff, que falou a respeito da atual onda de manifestações do país, se tornou um dos principais temas de debate nas mídias sociais.
De queixas de que o discurso teria sido "vazio" ou "mais do mesmo" a pessoas que elogiaram o tom adotado pela presidente, os comentários refletem o atual clima de ebulição no país.
"Falou, falou e não disse nada. Tudo o que ela quer é que abandonemos as ruas e nos calemos diante da Copa dos absurdos", queixa-se um leitor da BBC Brasil. "Simplesmente não dá mais. Impostos que já são altíssimos precisam retornar à população em forma de saúde, educação, segurança e qualidade de vida."
"(A presidente tratou) a reforma política de maneira genérica e não pontuou que mudanças (fará)", afirma outra leitora. "Ouvi apenas um discurso usado há anos e que hoje não faz mais o mesmo efeito."
Em contrapartida, uma usuária diz no Facebook que acha que "Dilma está fazendo o possível" e "não governa sozinha". "Ela tem que ter ser muito corajosa para segurar essa onda", afirma.
No Twitter, uma usuária opinou que a presidente "falou muito bem, trouxe propostas para iniciar uma nova fase do governo" e "saberá usar a pressão do povo para mudar o Brasil".
Mas também houve quem questionasse o fato de a presidente não ter se pronunciado mais cedo. "O mesmo discurso teria outro efeito se tivesse sido 48 horas antes", disse um tuíte.

Prática

Os comentários evidenciam as expectativas sobre como serão concretizados os temas levantados pela presidente, como formas mais eficientes de combater a corrupção, oxigenar o sistema político e melhorar os serviços públicos brasileiros.
"(Dilma) disse que está ouvindo as vozes das ruas, (mas) queremos ver atitudes, e não promessas", diz um usuário do Facebook, defendendo a redução do número de parlamentares e assessores e "fim de oba-oba" com dinheiro público.
"(Ela) não falou como combaterá a corrupção que assola nosso país, nem sobre a PEC 37 (que tramita no Legislativo e diz respeito à limitação de atribuições investigativas do Ministério Público)", diz outro usuário. "Disse que trará médicos estrangeiros, mas o que ela tem que trazer são melhorias aos hospitais que não têm condições básicas para o médico realizar seu trabalho."
No Twitter, um usuário afirmou: "O discurso foi escrito por alguém que sabe exatamente o que o brasileiro quer, mas não tem ideia de como vai dar".
"Tenho a sensação de abandono", queixou-se um leitor no Facebook. "(Quero) mais transparência com os gastos públicos e maior aproximação do governo com a população."
No Orkut, muitos comentaram a promessa da presidente em destinar a totalidade dos royalties do petróleo para a educação, mas houve quem achasse que "o discurso foi planejado para manipular o povo da classe média".

Protestos

De um lado, muitos veem o discurso como uma maneira de "acalmar os ânimos", mas outros acreditam que os protestos populares devem continuar. Manifestações em diversas cidades já estão sendo realizadas neste sábado.
"É preciso que os movimentos em todo o país continuem a cobrar nas ruas as mudanças", opina um brasileiro no Facebook.