"Vocês, jornalistas, precisam entender que para ser repórter de
guerra, hoje, não é preciso mais pegar um avião e ir para outro país. A
área de conflito é o que todos nós vivemos aqui hoje, no Brasil e no Rio
de Janeiro." A afirmação de Théo Toscano, especialista em artigos
explosivos do Centro Conjunto de Operações de Paz (CCopab), do Exército,
é um alerta que ficou mais do que evidente, após o rojão que feriu
gravemente o cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade, na
manifestação de quinta-feira, no centro do Rio de Janeiro.
Andrade
registrava imagens em frente à Central do Brasil, posicionado entre
polícia e manifestantes, e não usava capacete, máscara de gás, ou
qualquer outro aparato de segurança que o pudesse proteger de pedras,
bombas de gás ou, no caso, do rojão que, ao ser aceso por um suposto
manifestante ou policial à paisana, se dirigiu justamente para a região
da sua orelha esquerda.
Após ser operado nesta madrugada, ele
segue internado no hospital municipal Souza Aguiar, também no centro do
Rio, em estado muito grave. Por mais que o manifesto contra o aumento
da passagem de ônibus não tenha contado com o uso de armas letais, como é
de praxe em operações em comunidades do Rio, por exemplo, ainda assim,
alega o especialista, o uso destes equipamentos é de fundamental
importância para todos os envolvidos: policiais, manifestantes e
jornalistas.
"O ideal para todos é usar o mesmo capacete que os
soldados da ONU utilizam, capaz de segurar até um tiro. Mas se ele
estivesse usando um capacete, sei lá, de motoqueiro, por exemplo, com
certeza amenizaria os impactos que ele sofreu", explicou. Ele salientou
ainda que cada uma dessas proteções para a cabeça tem um nível de
segurança de acordo com cada tipo de situação de conflito.
"Mas
esses capacetes de obra, por exemplo, de nada adiantam", alertou ainda.
"Vocês têm que entrar equipados. Virou algo muito parecido com guerra
civil. Isso vai fazer total diferença para a cobertura", completou.
Toscano
explicou ainda a dinâmica do que ocorreu com o cinegrafista da TV
Bandeirantes. Após analisar todas as imagens divulgadas por diversos
veículos de imprensa, inclusive no portal Terra,
ele chegou a conclusão de que, sim, tratou-se de um artefato explosivo
artesanal e que o forte deslocamento de ar, com a proximidade do
estouro, foi determinante para a gravidade do caso. "Quando você tem
algo que explode, a parte física é empurrar o ar. É a mesma coisa que
você fechar o saco de pipoca e estourá-lo. Se esse deslocamento de ar
for muito forte, ele machuca. Você tem partes que são mais sensíveis,
como o tímpano e orelha. Pode causar danos sérios", enfatizou.
"Esse
artefato me lembrou a Guerra das Espadas da cidade de Cruz das Almas,
onde já morreu gente e a imprensa já cansou de cobrir. É o mesmo tipo de
artefato", complementou. A Guerra das Espadas é um festejo junino
tradicional da cidade baiana, e também da capital Salvador, mas que
desde 2011 é proibida pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Ainda assim,
ano passado, uma pessoa morreu e quatro ficaram feridas. "Todos vocês
têm que aprender a andar no lugar, não mexer nas coisas e prestar
atenção em tudo. Se acharem algo no chão, não mexam, pois aquela
artefato pode estar esperando você tocar para explodir. E se equipem
sempre", finalizou Toscano.
Ao Terra,
a assessoria de imprensa da TV Bandeirantes enviou um posicionamento
oficial sobre a falta de equipamento de segurança do profissional no
momento da explosão: "Nossos cinegrafistas usam, normalmente, colete
à prova de balas, durante coberturas em áreas de conflito, como, por
exemplo, quando acompanham ações policiais em regiões consideradas
inseguras. Eles recebem também treinamento adequado para esse tipo de
cobertura. No final do ano passado, nossa equipe, inclusive o
cinegrafista Santiago Andrade, frequentou um curso orientado por
especialistas do Exército. Um dos focos do curso foi exatamente sobre
segurança na cobertura de manifestações. Assim, no episódio da Central
do Brasil, Santiago estava postado a uma certa distância dos pontos de
confronto, quando jogaram o artefato que o atingiu pelas costas. E
trabalhava nas mesmas condições em que os cinegrafistas normalmente
cobrem eventos como aquele. Mas estamos ainda apurando todos os detalhes
que envolvem o procedimento."
Santiago participou do último curso do Exército para jornalistas em área de conflito ao lado do fotógrafo do Terra Mauro
Pimentel. Em novembro de 2011, um cinegrafista da Bandeirantes morreu
durante uma operação policial na favela de Antares, em Santa Cruz, zona
oeste do Rio de Janeiro. Gelson Domingos foi atingido por uma bala
perdida durante a ação que envolvia homens do Batalhão de Operações
Especiais (Bope) e do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). A
presidente Dilma Rousseff prestou solidariedade ao profissional.
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