quinta-feira, 9 de maio de 2013

Guerra Civil corta acesso da Síria à internet mundial

Atualização: Depois de quase 20 horas fora do ar, a conexão internacional de internet na Síria foi restaurada, como afirma a empresa de monitoramento Renesys. O governo do país diz que o corte de internet se deu devido a problemas em um cabo de fibra ótica, algo que David Belson, diretor de produtos da rede Akamai, acredita ser "improvável". Belson afirma que o rompimento de apenas um cabo - a Síria possui quatro provedores de internet ativos - não seria capaz de encerrar as atividades de internet em todo o país como o ocorrido ontem (7).
A Síria teve sua conexão de internet internacional cortada nesta terça-feira (7) devido à intensificação dos conflitos da guerra civil que domina o país há dois anos, segundo dados do Google e de outras empresas de internet. O Relatório de Transparência do Google identificou a interrupção do tráfego para as páginas sírias por volta das 16 horas (horário de Brasília) de ontem. As informações são da agência de notícias Reuters.
As páginas de relatório da gigante da Web continuaram apresentando interrupção no tráfego de internet do país mesmo quatro horas depois que a inatividade foi identificada. "Vimos isso duas vezes antes", afirmou Christine Chen, gerente sênior do Google para questões de liberdade de expressão. "Isso aconteceu na Síria em novembro e no Egito na primavera árabe".
Neste momento, não é possível identificar a autoria da interrupção de conexão na Síria a menos que um grupo ou uma pessoa em específico assuma a responsabilidade pelo caso - em novembro do ano passado, governo e forças rebeldes sírias se acusaram mutuamente de terem sido responsáveis pelo corte de internet no território. O Google também mostrou que a interrupção está distribuída em todo o país e ainda não se sabe se a conexão de internet local continua ativa.
Interromper a conexão e privar uma nação inteira da ferramenta de comunicação internacional é possível, já que os endereços de IP possuem especificações geográficas e o governo tem controle sobre as prestadoras e operadoras de internet no país. Por enquanto, nenhum representante da Síria fora do país e nem a Organização das Nações Unidas (ONU) foram contatados e puderam fornecer mais informações sobre a situação das comunicações na região.

Versão de ópera de Wagner com nazistas é cancelada na Alemanha

Uma polêmica versão de uma ópera de Wagner que estava em cartaz em uma das principais teatros da Alemanha foi cancelada por incluir cenas de violência envolvendo nazistas na Segunda Guerra Mundial.
O teatro Opernhaus de Dusseldorf informou que algumas pessoas na plateia tiveram de ser atendias por um médico após uma exibição da ópera Tannhäuser.
Mas o diretor do espetáculo, Bukhard Kosminski, teria se recusado a fazer mudanças na ópera, que na montagem se passava em um campo de concentração durante o Holocausto.
O espetáculo trazia cenas como a de judeus sendo executados, uma família tendo a sua cabeça raspada antes da execução e cenas de pessoas sendo mortas em câmaras de gás.
"Após termos considerado todos os argumentos, chegamos à conclusão que não podemos justificar um impacto tão extremo em nosso trabalho artístico", disse um comunicado da companhia de opera Deutsche Oper am Rhein, responsável pelo espetáculo.
"Com grande preocupação, notamos que algumas cenas (em especial a cena de execução) foram recriadas de forma muito realista, causando transtornos psicológicos e físicos" a alguns membros da plateia, de acordo com o comunicado.

'Protestos violentos'

A casa de óperas disse ter de respeitar a liberdade artística do diretor e que também tinha de fazê-lo por razões legais.
A administração do Rheinoper disse estar ciente que o "conceito e a implementação" da produção de Kosminski seria polêmica.
A produção, que teve sua estreia na semana passada, provocou "protestos violentos" na estreia, segundo jornais locais.
O líder da comunidade judaica de Dusseldorf, Michael Szentei-Heise, disse à agência de notícias Associated Press que "pessoas na plateia vaiaram e saíram batendo as portas ao deixarem o teatro em protesto". Ele qualificou a adaptação como sendo "de mau gosto e ilegítima".
A montagem original de Tannhäuser, que se passa na Alemanha da Idade Média, foi apresentada pela primeira vez na cidade alemã de Dresden, em 1845.
Ela se baseia na tradiconal balada do bardo Tannhäuser e conta com um concurso de canto no castelo de Wartburg.

Acusado de sequestrar meninas nos EUA aparece diante de tribunal

O ex-motorista de ônibus escolares Ariel Castro, de 52 anos, fez na manhã desta quinta-feira sua primeira aparição diante de um tribunal americano em Cleveland, no Estado de Ohio. Ele é o principal acusado por sequestrar três meninas e mantê-las em cativeiro por mais de dez anos.
Ele responderá a quatro acusações de sequestro – a quarta refere-se à filha de uma das sequestradas, que nasceu no cativeiro.
Além disso ele enfrentará julgamento por três acusações de estupro.
Até o momento ele não se disse inocente nem confessou nenhum dos crimes dos quais é suspeito. Além dele, dois de seus irmãos também foram detidos por supostamente servirem de cúmplices: Pedro, de 54 anos, e Onil, de 50 anos.
A audiência foi rápida e durou cerca de cinco minutos. O juiz responsável pelo caso estipulou fiança de US$ 2 milhões (R$ 4 milhões) para cada acusação.
As três meninas desapareceram no início dos anos 2000. Amanda Berry foi vista pela última vez em 2003, aos 16 anos e Gina DeJesus desapareceu aos 14 anos, em 2004. A terceira mulher, Michelle Knight, tinha 19 anos quando foi sequestrada, em 2002.
As três jovens foram resgatadas nesta terça-feira após um vizinho ter ouvido Amanda gritando e chutando uma porta, enquanto o suposto sequestrador não estava em casa.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Livres, vítimas de rapto têm à frente desafio de recuperar sua identidade

"Vivas e seguras", dizia a manchete de um jornal em Cleveland, anunciando o resagte de três jovens na segunda-feira, após serem mantidas reféns por cerca de uma década.
Foi um final feliz para uma história que, a cada detalhe revelado, ganha contornos ainda mais desconcertantes.
Amanda Berry, Gina DeJesus e Michelle Knight passaram todos esses anos presas em uma casa no oeste de Cleveland, sendo boa parte do tempo em um porão. Após Amanda conseguirem fugir, elas foram resgatadas da casa de Ariel Castro, de 52 anos. Ele e seus dois irmãos, Pedro e Onil, foram presos.
Mas claro que esse não é o final da história.
"Não está nem perto do fim", afirma Herb Nieburg, professor de Direito e Justiça do Mitchell College em New London, no estado americano de Connecticut. "Elas ainda enfrentarão longas horas de terapia e tratamento para estresse pós-traumático."
Apesar de as mulheres estarem fora de perigo físico, vai levar muito tempo para que elas se recuperem totalmente.
Isso porque as táticas usadas pelos sequestradores em casos semelhantes fazem as vítimas se sentirem indefesas, com medo e com a autoestima arrasada.
"Mulheres vitimizadas são isoladas da sociedade por seus captores, e as experiências pelas quais elas passaram impactam em sua autoestima, sua autoconfiança e sua identidade", diz a psicóloga Rona Fields, que é autora de livro sobre violência contra mulheres.
Segundo ela, esse é um padrão em casos ocorridos em todo o mundo, seja no Afeganistão, na China ou nos Estados Unidos. "O relacionamento com as famílias foi destruído", diz. "A jovem mantida em cativeiro sente que foi abandonada e rejeitada."

Abuso

Casa em Cleveland
Jovens ficaram presas em uma casa em Cleveland por cerca de uma década
A polícia confirmou que a menina de 6 anos encontrada na casa é filha de Amanda Berry – e aparentemente nasceu no cativeiro. Há relatos de que as outras mulheres também sofreram abusos.
Essa mistura de violência física e sexual pode levar a vítima a ter uma sensação de perigo, obediência e abalos psicológicos mesmo após o fim dos abusos.
"A violência sexual é humilhante, te faz sentir mal com você mesmo", afirma Nieburg. "Instila uma sensação de desespero e desesperança."
Tal combinação foi vista em casos semelhantes, especialmente com as vítimas Elizabeth Smart e Jaycee Dugard.
Elizabeth tinha 14 anos quando foi sequestrada por Brian David Mitchell, que dizia que ela era sua noiva. Ele abusou sexualmente da jovem durante nove meses.
Jaycee estava indo para a escola quando foi raptada por Phillip Garrido. Na época, ela tinha 11 anos. No total, ela ficou no cativeiro por 18 anos e teve dois filhos durante esse período.

Cultos

As duas jovens tiveram diversas oportunidades para chamar atenção das pessoas em seu entorno e tentar fugir. Mitchell levava Elizabeth para festas e restaurantes. Jaycee trabalhava na loja de Garrido e eventualmente tinha contato com o público.
Quando finalmente foram confrontadas por autoridades, as duas demoraram para revelar suas verdadeiras identidades. E essa é uma situação comum nesses casos.
Saber que ainda era procurada ajudou Amanda (dir.) a ter confiança para tentar fugir
"Geralmente, há restrição física, mas eventualmente essa restrição é substituída por técnicas similares às usadas em cultos: controle da mente e ameaças", afirma Nieburg.
As vítimas podem perder a perspectiva de quem elas são, após anos de sofrimento.
"São tantos os abusos que, se em um dado momento ela não é mais abusada como antes, a vítima pode sentir gratidão para com seu sequestrador", diz Peter Suefeld, professor de psicologia da Universadade da Colúmbia Britânica.
"Por outro lado, elas também têm medo de tentar escapar e não conseguir – e, então, aquelas condições que até então eram toleráveis podem se tornar novalmente intoleráveis."
E Jaycee chegou a explicar por que não tentou escapar: "O que eu conhecia era seguro. O desconhecido era aterrorizante".

Confiança

Mas, no caso das jovens de Cleveland, Amanda tentou fugir e, com isso, conseguiu libertar sua filha e as outras duas jovens.
Em sua ligação para a polícia, ela diz: "Eu sou Amanda Berry. Estou no noticiário há 10 anos".
Essa noção clara de quem era antes de ser capturada e de que não havia sido esquecida, que as pessoas ainda estavam procurando por ela, pode ter ajudado a lhe dar a confiança necessária para fugir.
"Se você acha que não estão mais procurando por você, predomina um sentimento de abandono", diz Suedfeld, acrescentando que os sequestradores costumam dizer às vítimas que suas famílias desistiram de encontrá-las.
Mas apesar de Amanda e de as outras jovens terem obtido a liberdade, mulheres resgatadas desse tipo de situação nunca estão totalmente livres – ao menos não em um primeiro momento.

'Para sempre'

Pode levar anos para que elas consigam tratar o sofrimento pelo qual passaram nas mãos de seus sequestradores.
"Esse trauma vai permanecer com elas por muito tempo, possivelmente para sempre", diz Suedfeld. "Elas terão pesadelos e podem desconfiar de pessoas estranhas, especialmente de homens."
Elas terão de se reajustar de uma vida em cativeiro para outra no mundo real, cheia de sons, odores e pessoas ao redor delas.
Para a austríaca Elisabeth Fritzl, que escapou de um porão onde seu pai a estuprou por 24 anos, uma das transições mais difíceis foi viver em cômodos amplos e com luz.
Levou dez anos para que as três mulheres em Cleveland conseguissem fugir. E pode levar muitos outros anos para que elas se ajustem a essa mudança.

Pirataria e terrorismo na África podem afetar Brasil, diz Amorim

Com sua vizinhança na América do Sul em paz e potenciais ameaças surgindo do outro lado do Atlântico, o Brasil vem ampliando seus esforços de defesa no oceano e estreitando os laços militares com países africanos.
A estratégia, que também abarca interesses comerciais como a venda de armamentos brasileiros para a África, segue um movimento amplo da diplomacia nacional rumo ao continente que ganhou fôlego no governo Lula, quando o Itamaraty era chefiado por Celso Amorim.
Hoje ministro da Defesa, Amorim diz à BBC Brasil que a aproximação entre militares brasileiros e africanos busca ainda combater o narcotráfico e evitar que a pirataria no Golfo da Guiné, na costa atlântica da África, prejudique o Brasil.
O movimento, segundo o ministro, também visa preparar as forças brasileiras e africanas caso a crise no Mali respingue no Atlântico. Naquele país, próximo da costa ocidental africana, grupos extremistas – entre os quais a Al-Qaeda no Magreb Islâmico – se uniram a movimentos separatistas tuaregues em batalha contra o governo central, hoje apoiado por tropas francesas.
"Se (o conflito) chegar na costa ocidental africana, começa a chegar perto dos interesses brasileiros e temos que estar alertados para isso."
Leia os principais trechos da entrevista com Amorim, concedida no Ministério da Defesa, na última quinta-feira.
BBC Brasil - Qual o objetivo da aproximação militar entre o Brasil e países africanos?
Celso Amorim - A nossa estratégia de defesa tem uma dimensão de cooperação e outra de dissuasão. Dissuasão é contra quem tiver de ser, mas, na América do Sul, tem sido tradicionalmente de cooperação. É natural que o mesmo conceito se aplique à África, que compartilha conosco o oceano, uma área até hoje pacífica, com raríssimas exceções, e que desejamos manter assim.
Por outro lado, os países africanos têm conosco um comércio crescente, há interesses crescentes do Brasil na África, e eles têm interesse também em cooperação para garantir que o Atlântico Sul continue a ser um oceano pacífico, mas também para enfrentar novas ameaças, como pirataria, contrabando e tráfico de drogas, que podem até vir mescladas com outras mais graves, o que não ocorreu até agora.
BBC Brasil - O senhor se refere ao terrorismo?
Amorim - Não podemos ignorar que existe essa questão. Quando houve o problema na Líbia, antevíamos que isso teria consequência um pouco mais para o sul da África. Um ano e meio depois, tivemos o problema no Mali. O Mali já está muito próximo da costa ocidental africana.
Espero que isso não ocorra. Se chegar na costa ocidental africana, começa a chegar perto dos interesses brasileiros e temos que estar alertados para isso. Sempre em colaboração com os principais responsáveis, que são os próprios africanos.
BBC Brasil - Em que estágio está a colaboração com essas nações?
Amorim - Essas coisas evoluem aos poucos, mas, do ponto de vista político, já há aproximação com a África há algum tempo. Ela obviamente se acentuou muito no governo Lula e agora com Dilma, mas ela é mais antiga.
"Os países africanos veem no Brasil um país que coopera e que não traz nenhuma carga emocional negativa de outros tempos"
Com a Namíbia, porque nos pediram já há muito tempo, o Brasil começou a cooperar ativamente na formação da Marinha. Com os países de língua portuguesa, havia alguma cooperação, e continua a haver, mas temos que acentuar, acelerar isso e desenvolver relações bilaterais com esses países, não só os de língua portuguesa.
Os países africanos veem no Brasil um país que coopera e que não traz nenhuma carga emocional negativa de outros tempos. É um país em desenvolvimento, que tem preocupações semelhantes.
Combatentes no Mali
Teme-se que conflito do Mali (acima) chegue à costa ocidental africana, onde o Brasil tem interesses
Não vou esconder que também há um interesse comercial. O Brasil produz equipamentos que podem ser úteis para esses países. Aliás, já temos vendido alguns, outros estão em fase de estudo e análise, mas esse não é o objetivo principal.
Outros países estão interessados que indústrias brasileiras possam se estabelecer no seu território. Outros não têm nem condição disso, estão só interessados em adquirir, receber um equipamento, mas sempre têm interesse também em participar de exercícios.
BBC Brasil - Esse lado comercial não pode suscitar críticas da comunidade internacional se armas brasileiras forem vendidas para países com regimes contestados, como a Guiné Equatorial?
Amorim - Os países que contestam gostam muito de contestar os outros e vender eles próprios. Os grandes conflitos na África não foram alimentados com armas brasileiras, conflitos ligados a questões como diamantes, petróleo. Nossa relação é com Estados, que têm que defender sua integridade física.
Não é uma cooperação voltada à segurança interna desses países, é voltada à defesa de Estados soberanos, reconhecidos como tais pelas Nações Unidas.
BBC Brasil - O governo não se preocupa com o risco de que armas brasileiras vendidas a países africanos sejam usadas contra civis?
Amorim - Temos muita preocupação, mas o tipo de equipamento que vendemos é equipamento de defesa do Estado. Vendemos Super Tucanos (aviões militares da Embraer) e, se eventualmente chegarmos a vender navios-patrulha, isso não é para usar contra população civil.
O Brasil acompanha, segue resoluções da ONU, tem muita preocupação com esses fatos. Mas a nossa ótica não é necessariamente a de países desenvolvidos.
Vejo muitas situações em países específicos em que, às vezes, a visão de países desenvolvidos, ricos, sobretudo ex-potências coloniais, não é a mesma da nossa. Às vezes (eles) têm uma visão muito particular da situação e querem expurgar as próprias culpas descobrindo outros males.
BBC Brasil - Mas se, por exemplo, o Estado brasileiro financia a construção de uma fábrica de armas na Argélia por empresas brasileiras (conforme concorrência em curso naquele país disputada pelas brasileiras Odebrecht e a Atech), o Brasil não fica em situação próxima das ex-potências coloniais?
Amorim - É uma relação de Estado, com um país soberano, que não está sob sanções da ONU. Tenho uma certa experiência, não sou muito ingênuo nessa situação.
Pegue o drama da Síria: um lado fornecendo armas para o governo, o outro, direta ou indiretamente, fornecendo armas para os rebeldes. De violações os dois lados são acusados, mas, quando convém, você salienta um aspecto.
Não vou ficar aqui citando países. Mas verifique as guerras civis na África e veja quem forneceu armamentos para grupos que não respeitavam nem resoluções da ONU, nem o direito internacional. Por cima do pano e por baixo do pano. Nós não queremos vender por baixo do pano, não venderemos.
BBC Brasil - Quais os objetivos das manobras que a Marinha brasileira tem realizado em países africanos?
Amorim - Manobras, mesmo, eu diria [que se aplica] mais ao que temos feito com a África do Sul. Mas aí não é só com África, é um programa do Ibas (fórum que agrega Índia, Brasil e África do Sul), um grupo de três países em desenvolvimento, democráticos, plurirraciais.
Os outros, chamar de manobra talvez seja um pouco de exagero. Quando temos uma embarcação militar, em vez de esses navios-patrulha fazerem sua viagem inaugural para portos de países desenvolvidos, onde nós talvez não tenhamos muito a oferecer, eles têm visitado portos africanos e realizado pequenos exercícios para interceptar barcos piratas, exercícios ligados à ocupação de barcos inimigos, que são muito apreciados.
O Brasil tem a maior costa atlântica do mundo. É mais do que natural que tenhamos essa cooperação, que a gente amplie esses treinamentos que já vêm recebendo alguns países.
Tudo depende do tamanho do país. Cabo Verde, por exemplo, é um país arquipélago no meio do Atlântico. É do nosso interesse, além do lado de solidariedade com um país africano em desenvolvimento membro da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), evitar que haja problemas numa região próxima do Brasil e parte das nossas rotas marítimas.
BBC Brasil - O Brasil já foi instado por algum desses países a agir de forma mais combativa, inclusive interceptando navios piratas, como França ou EUA fazem frequentemente na costa africana?
Amorim - Cada país tem suas doutrinas e nós teremos a nossa. Em primeiro lugar, sempre respeitosa ao desejo do próprio país e sempre analisando cada situação. Eu não excluo que uma coisa dessas possa acontecer a pedido deles, mas também não creio que seja muito imediata.
Golfo da Guiné
Pirataria no Golfo da Guiiné tem crescido e preocupa Brasil
Mas acho que estamos fortalecendo laços que podem servir idealmente para habilitar o próprio país a fazer sua defesa.
BBC Brasil - Ainda não houve pedidos?
Amorim - Houve pedido para nós ajudarmos, mas não muito claro se era com meios nossos ou ajudando os meios dos países.
BBC Brasil - Alguns estudos recentes apontam a pirataria no Golfo da Guiné, na costa ocidental da África, como um problema crescente, enquanto a pirataria na costa da Somália, no Chifre da África, tem diminuído. A pirataria no Golfo da Guiné pode prejudicar o Brasil?
Amorim - É claro. Boa parte do petróleo que importamos vem do Golfo da Guiné ou imediações. Já temos conversado muito com países como Angola e outros, África do Sul, Namíbia, sobre possibilidades de exercícios conjuntos mais amplos.
Fomos convidados a participar como observadores de uma reunião africana relativa à segurança do Golfo da Guiné. Mas a responsabilidade primordial é dos países ribeirinhos.
Nós poderemos ajudar por dois motivos: solidariedade, que é real na nossa política externa sobretudo em relação à África, mas também por interesse nosso: rotas marítimas, petróleo, empresas brasileiras.
BBC Brasil - O uso do Atlântico Sul para o transporte de drogas tem se tornado mais visível e gerado crescente preocupação no exterior. O que o Brasil faz para evitar que embarcações com drogas partam daqui rumo à África?
Amorim - Temos ações no nosso território, mas obviamente existe essa preocupação, ela é uma das razões que nos movem. Não é segredo para ninguém que há preocupação muito grande da comunidade internacional com a situação na Guiné-Bissau.
Trabalhamos no passado com ideia de ajudar a reformar as Forças Armadas da Guiné-Bissau, mas isso depende do próprio país. A situação hoje não facilita essa cooperação, mas (estamos) na expectativa de que país se redemocratize rapidamente e resolva ou encaminhe o problema que existe com relação ao narcotráfico.
BBC Brasil - O governo então condiciona seus acordos militares na África à situação de cada país?
Amorim - Não é que façamos distinção entre países, mas é preciso que haja um processo. Não precisamos esperar que tudo esteja perfeito. Se formos esperar que tudo esteja perfeito, você não consegue talvez até melhorar a situação do próprio país, que é o objetivo.
Esse foi um erro que se cometeu em relação à Guiné-Bissau no passado. Há quatro, cinco anos, havia uma consciência clara do que era preciso fazer, mas alguns países, sobretudo grandes doadores, de quem se dependia para levar adiante os planos, ficaram a dizer não. Acabou não se fazendo nada, e a situação se agravou tremendamente.
"O Brasil não é um país que tenha inimigos, mas ele não pode descuidar de seus interesses e ninguém pode descuidar da sua própria defesa"
Mas também não posso de repente ceder, ainda que seja uma lancha-patrulha, sem ter certeza de que ela não vai parar na mão de narcotraficantes. A linha divisória é essa.
BBC Brasil - Alguns analistas veem uma militarização no Atlântico Sul. Eles citam o reforço militar da Grã-Bretanha nas ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos), ações da Marinha da China para assegurar seu comércio com a África e a reativação da Quarta Frota americana. Essas movimentos preocupam o Brasil?
Amorim - Não quero citar movimentos específicos, porque não tenho preocupação com esse ou aquele país. Somos contra uma militarização e, sobretudo, somos contra o desdobramento de forças no Atlântico Sul que possam ser de ataque, que usem armas de destruição em massa, nucleares ou outras.
O Brasil sempre tem combatido isso na diplomacia, e nós também na Defesa temos essa política. O Brasil não é um país que tenha inimigos, mas ele não pode descuidar de seus interesses e ninguém pode descuidar da sua própria defesa.
O Atlântico Sul é uma área natural do nosso interesse, independentemente de outros países estarem fazendo isso ou aquilo. Queremos evoluir no Atlântico Sul, enfrentando problemas como o da pirataria, mas sem transformá-lo num apêndice do Atlântico Norte.
BBC Brasil - Tem havido uma mudança no foco da Defesa brasileira do Cone Sul para o Atlântico Sul?
Amorim - Não gosto muito da expressão Cone Sul – a maior parte do Brasil não é Cone Sul. Agora, por uma série de fatores – maior política de integração, maior entendimento entre lideranças políticas, maturidade das sociedades –, a América do Sul é hoje uma área de paz.
Claro que tem que manter forças, porque existem grupos irregulares, bandos armados, o Brasil tem uma fronteira extensíssima. Mas, sendo a América do Sul uma zona de paz e havendo ameaças novas e algumas das antigas também (no Atlântico Sul), até por rivalidades entre terceiros, temos interesse em evitar eventuais conflitos que não estamos prevendo hoje.
Quando você prepara defesa, não é para os próximos dois nem três anos, mas 20, 30, 40 anos. Temos que estar preparados para nos defender e defender nossos interesses.
BBC Brasil - Existe algum cuidado especial com a defesa das reservas do pré-sal?
Amorim - Claro que existe. Essa é uma das explicações para o programa forte da Marinha brasileira, no caso dos navios-patrulha, e outros de porte menor para defesa mais local, sendo fabricados no Brasil.
O próprio submarino de propulsão nuclear, o objetivo principal de termos esse submarino é termos capacidade ampla de movimentação. Algumas dessas decisões antecedem as descobertas do pré-sal, que acentuaram essa preocupação.
BBC Brasil - O senhor imagina um cenário em que o Brasil possa ser chamado a intervir militarmente num país africano? Para, por exemplo, atuar na Guiné-Bissau de modo semelhante ao que a França agiu recentemente na Costa do Marfim?
Amorim - Intervir é uma palavra de que não gostamos, e intervir militarmente menos ainda. Mas acho que podemos ajudar se houver concordância de líderes democraticamente eleitos na Guiné-Bissau, se houver concordância dos países da CDAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), se houver um pedido da ONU.
"Os desafios internos não são da área de Defesa, quem cuida disso são Polícia Federal e Ministério da Justiça. Nós ajudamos em fronteira e em situações excepcionais, mas essa não é a missão primordial das Forças Armadas."
Há uma porção de condicionantes prévias, como [as que regem a presença de forças brasileiras] no Haiti. Mas não consideramos nossa força no Haiti de intervenção: é uma força de paz que está lá para garantir ordem enquanto se processa estabilização não só política, mas social no país.
BBC Brasil - Quando ocorrerá a retirada total das tropas brasileiras no Haiti?
Amorim - Queremos que ela seja progressiva. A última redução implicou do nosso lado em redução de 400 [militares]. Estamos levando o nível de nosso contingente para aqueles quantitativos que prevaleciam antes do terremoto. Não posso fazer um cronograma como se estivesse construindo uma estrada. Não é assim.
BBC Brasil - O Brasil poderá enviar militares à República Democrática do Congo agora que o comandante da força da ONU no país será brasileiro, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz?
Amorim - Acho que o "force commander" (comandante da força), por enquanto, está de bom tamanho. Ele não nos pediu nada.
BBC Brasil - Mas é possível?
Amorim - Temos que estar presentes onde podemos fazer diferença. No momento, temos engajamento muito forte no Haiti, que ainda vai durar um tempo, embora não seja nossa intenção de maneira alguma nos perpetuarmos.
Temos uma presença naval no Líbano muito importante. É a primeira vez que o Brasil tem uma presença no Mediterrâneo, que é um teatro tradicional militar, naval. Temos que analisar cada solicitação com muito cuidado.
Agora, se o general precisar de algum apoio do Estado Maior, vamos fazer o possível para ajudar. Não estou falando de tropas, estou falando de apoio, observadores etc.
BBC Brasil - O Brasil tem condições de manter suas Forças Armadas em todas essas frentes externas – Haiti, Líbano, crescente cooperação com países africanos e outros – tendo tantos desafios internos na área de defesa?
Amorim - Os desafios internos não são da área de Defesa, são da área de segurança e quem cuida disso são Polícia Federal e Ministério da Justiça. Nós ajudamos em fronteira e em situações excepcionais, mas essa não é a missão primordial das Forças Armadas. A missão primordial é a defesa do país.
Então não vejo que tenhamos de maneira alguma nos enfraquecido por ter mandado tropas para o Haiti ou a fragata ao Líbano, até porque essas missões também servem para colocar nossos militares em situações reais. Isso tem papel muito positivo na formação, no treinamento das nossas Forças Armadas.
BBC Brasil - O impasse quanto à compra de caças para a Aeronáutica terá um desfecho em breve?
Amorim - Espero que sim. É a única coisa que posso dizer.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Cantora Lauryn Hill é sentenciada à prisão

A cantora americana Lauryn Hill foi condenada nesta segunda-feira a três meses de prisão por evasão fiscal.
A cantora deixou de pagar cerca de US$ 1,8 milhão em impostos sobre seus rendimentos entre 2005 e 2007.
Vencedora de diversos prêmios Grammy, Hill começou sua carreira com a banda de hip hop Fugees e depois lançou um bem-sucedido álbum solo, "The Miseducation of Lauryn Hill", que vendeu mais de 19 milhões de cópias.
Ela havia dito que tinha a intenção de pagar seus impostos, mas não conseguiu porque precisou interromper sua carreira para criar seus seis filhos.

Alemanha prende suposto ex-guarda de campo de extermínio de Auschwitz

Autoridades alemães prenderam nesta segunda-feira um homem de 93 anos que teria trabalhado como guarda no campo de extermínio nazista de Auschwitz, no sul da Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial.
Promotores do estado de Baden-Wuerttemberg, na Alemanha, identificaram o suspeito como Hans Lipschis. Ele teria trabalhado no local, um dos maiores símbolos do Holocausto, entre 1941 até a liberação pelos Aliados, em 1945.
Lipchis era o quarto homem mais procurado pelo Simons Wisenthal Center, entidade criada após a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de levar criminosos nazistas à Justiça.
Ele será indiciado como cúmplice por homicídios.
Lipchis admitiu ter servido à SS (Schutzstaffel, organização paramilitar ligada ao Partido Nazista) em Auschwitz, mas afirmou que trabalhava apenas como cozinheiro.

Incerteza expõe temor sobre armas químicas da Síria

Uma comissão de inquérito da ONU anunciou nesta segunda-feira que, apesar de suspeitas levantadas anteriormente, ainda não é possível concluir com certeza que agentes químicos foram usadas no conflito na Síria por qualquer um dos lados envolvidos.
Mas a declaração manteve a incerteza a respeito das armas químicas do país, que não é signatário da Convenção sobre as Armas Químicas (CWC, na sigla em inglês) nem ratificou a Convenção de Armas Tóxicas e Biológicas (BTWC, na sigla em inglês) e nunca fez uma declaração formal sobre o tamanho de seu arsenal.
As autoridades sírias já admitiram guardar armas químicas, embora tenham afirmado repetidas vezes que nunca as empregariam contra seu próprio povo. O ex-porta-voz do ministro de Relações Exteriores da Síria Jihad Makdissi, que desertou, afirmou em setembro passado que a Síria poderia usar armas químicas contra uma possível "agressão externa".
Porém, além de não se saber ao certo quantas armas do tipo o país possui, também não se sabe exatamente como o arsenal do país foi obtido ou desenvolvido.
Recentemente, relatos de vítimas e médicos aumentaram a desconfiança em relação ao uso de gás sarin, um agente altamente tóxico, em ataques de rebeldes contra as forças do governo.
Por outro lado, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha acusam as forças leais ao presidente Bashar al-Assad de ter empregado o mesmo tipo de agente contra os insurgentes.

Gás mostarda e sarin

Armas químicas no século 20

  • Agentes químicos foram usados pela primeira vez como armas pela Alemanha na 1ª Guerra Mundial.
  • O gás mostarda já foi empregado em inúmeros conflitos, como pelas forças britânicas na Guerra Civil Russa de 1919, pelas forças soviéticas na China em 1930 e pelas tropas italianas e espanholas no Norte da África.
  • O gás sarin foi inventado por um cientista alemão nos anos 30 na véspera da 2ª Guerra Mundial.
  • O ex-líder iraquiano Saddam Hussein usou agentes tóxicos como o sarin e o gás mostarda nos curdos entre 1987 e 1988 e no Irã entre 1980 e 1988.
  • A seita militante do Japão Aum Shinrikyo usou o gás sarin no metrô de Tóquio em 1995.
Além do gás sarin, há indicações de que a Síria tenha gás mostarda, também tóxico.
Além disso, a CIA, o serviço secreto americano, também acredita que o país já tentou desenvolver agentes mais tóxicos e letais, como o gás VX.
Um relatório indiano nas áreas de defesa e segurança estima, com base em dados de agências de inteligência ocidentais, árabes e turcas, que o estoque de armamentos químicos na Síria é de "cerca de 1 tonelada, armazenada em 50 cidades diferentes".
"A capacidade de armas químicas da Síria é conhecida por estar em estado de prontidão e portanto representa uma ameaça maior do que qualquer capacidade nuclear que o país possa ter", informa o levantamento.
Além disso, há preocupações sobre a capacidade da Síria de fazer uso desses agentes.
A CIA acredita que esse armamento possa ser empregado de diferentes plataformas, como bombas aéreas, granadas, foguetes ou mísseis balísticos.
Há relatos de que a Síria tenha adquirido gás mostarda do Egito entre 1972 e 1973, antes da Guerra do Yom Kippur. Nos anos 80, o governo do país teria começado a produzir o agente a partir de fontes próprias.
A produção local do gás sarin também teria começado na mesma década. Autoridades americanas alegam que a Síria recorreu a pesticidas para a fabricação do agente tóxico em 1988, segundo um relatório.
Outro relatório, da publicação Jane´s Intelligence, indica que, em 1993, teria início a produção de artilharia aérea com gás mostarda.

Impacto do uso de armas químicas

O ataque a moradores da cidade de Khan al-Assal no norte da Síria em março passado pôs a discussão sobre as armas químicas de volta no centro das atenções.
Ambos os lados do conflito trocaram acusações sobre o uso desse tipo de armamento no ataque, que deixou 27 pessoas mortas.
Imagens de supostas vítimas do gás sarin no distrito de Sheikh Massoud, em Aleppo, no norte do país, caíram recentemente na Internet.
O vídeo mostra pessoas espumando pela boca e se contorcendo, sintomas típicos da exposição ao agente tóxico.
O gás Sarin é considerado 20 vezes mais mortal que o cianeto e não pode ser detectado por ser insípido, inodoro e incolor.
A toxina ataca o sistema nervoso, causando frequentemente problemas respiratórios, além de causar a morte dentro de alguns minutos após a primeira exposição.
Já o gás mostarda é uma toxina que queima os olhos e a pele, se exposto, e pulmões e garganta, se inalado.
Apesar de não ser tão letal quanto o sarin, não há tratamento ou antídoto para o agente. Para eliminá-lo, é preciso que o paciente o remova totalmente do corpo.
Veja abaixo uma tabela com as características e impacto na saúde dos dois gases:

Armas químicas


Gás mostarda Gás sarin
Aparência/odor Incolor e às vezes inodoro. Apresenta um cheiro semelhante ao de cebolas podres, alho ou mostarda. Inodoro, insípido e incolor.
Forma Líquido à temperatura ambiente, mas é mais comumente usado em sua forma gasosa. Líquido, evapora rapidamente (gás) e tem ampla difusão.
Absorção Contato com a pele ou inalação. Contato com a pele ou inalação. Pode ser ingerido na comida ou na água.
Velocidade do impacto Não há sintomas imediatos mediante contacto; vítima demora de duas a 24 horas para sentir efeitos. Os primeiros sintomas aparecem segundo após a exposição ao vapor e até 18 horas após exposição à forma líquida.
Efeitos O gás provoca a formação de bolhas, além de ardor nos olhos e na pele expostas a ele. Também causa irritação nos pulmões, boca e garganta, se for inalada. Normalmente não é letal, mas pode causar câncer e desfiguração grave. O sarin ataca o sistema nervoso. Sua inalação pode provocar a morte entre um a dez minutos após a exposição.
Sintomas Conjuntivite, queimaduras na pele, dor de garganta, tosse e susceptibilidade à infecção e pneumonia. Exposições curtas podem causar irritação nos olhos, corrimento nasal, visão borrada, salivação, tosse, aperto no peito, diarréia, confusão, sonolência e náusea. Exposições longas podem matar em questão de minutos, sem tratamento. Os sintomas incluem insuficiência respiratória, perda de consciência e paralisia.
Tratamento Não há nenhum tratamento ou antídoto para lesões do gás mostarda. O agente deve ser removido totalmente do organismo. Antídotos como atropina e fisostigmina têm de ser administrados imediatamente.
Fonte: Centros de Controle e Prevenção de Doenças (EUA)

Violência pode levar à divisão territorial no Iraque

Alguns observadores consideram a atual conflagração no Iraque como a pior crise que já atingiu o país desde sua consolidação como Estado em 1921.
Outros consideram o atual momento como o mais crítico desde a queda de Saddam Hussein em 2003 ou desde a retirada das tropas americanas em 2011.
Muitos estão convencidos de que o Iraque está à beira de uma guerra civil sectária que pode desintegrá-lo. Nesse contexto, um acordo de divisão seria a opção menos pior.
O Iraque encontra-se atado a tensões regionais agudas, com seus distintos componentes puxados em direções diferentes pelas mesmas forças envolvidas no conflito da vizinha Síria – que causa impacto direto em Bagdá.
De qualquer ângulo, a situação é ruim.
Mas isso não significa necessariamente que as previsões mais terríveis estão fadadas a se tornar realidade.
O país tem mostrado uma notável capacidade de tropeçar de crise em crise sem atingir uma solução estável nem se desintegrar de vez.
Mas um cenário de "pior das hipóteses" é agora visível e plausível.
Ele seria o da divisão do país por correntes étnicas, segundo as maiores comunidades: uma maioria xiita (60%), sunitas e curdos.

Sinais de alerta

Os sinais de alerta já estão presentes. Um deles é o número crescente de mortes provocadas pelos últimos episódios de violência que ocorreram em diversas partes do país.
A maioria das estimativas concordam que o último mês de abril foi o mais sangrento desde 2008. A ONU diz que mais de 700 pessoas foram assassinadas em ataques a bomba e outros tipos de violência. Entre as vítimas estão 430 civis.
Grande parte dos episódios de violência ocorreu no final do mês, após um incidente na cidade de Hawija, na província de Kirkuk, em 23 de abril. Na ocasião, forças de segurança leais ao premiê xiita Nouri Maliki mataram um grande número de manifestantes sunitas.
Esses assassinatos desencadearam mais distúrbios e incidentes, especialmente em áreas sunitas que começaram a viver alguma agitação contra o governo de Maliki, desde dezembro do ano passado.
Dinamitadores insurgentes, supostamente ligados à rede al-Qaeda e seu "Estado Islâmico no Iraque", também intensificaram seus atentados contra centros de grande concentração de população xiita.
Mas essas ações não surgiram do nada. Elas fazem parte de uma progressão iniciada com a formação do atual governo, um processo que levou meses, de março de 2010, mês da eleição, a dezembro do mesmo ano.
O governo liderado por Maliki deveria ser fruto de uma parceria nacional.
Iyyad Allawi, um xiita de perfil secular que atraía muitos votos sunitas, e sua coalizão Iraqiyya despontaram à frente de Maliki nas pesquisas. Mas sob um acordo de divisão de poderes intermediado pelo líder curdo Masoud Barzani, ele deveria liderar o Conselho Superior de Estratégia Nacional, com poderes consideráveis.
Nada disso aconteceu. Ao invés de ser visto como um aliado, Maliki têm recebido cada vez mais críticas por usar seus poderes de forma autocrática, controlando todo o aparato de segurança e o Ministério do Interior.
A participação sunita tem sido cada vez mais marginalizada. Maliki não tem se ocupado de demandas e queixas sunitas relacionadas à libertação de prisioneiros, a leis antiterroristas e à criação de empregos.
Como pano de fundo, as atividades sunitas extremistas nunca foram completamente debeladas.
No ano seguinte à formação do governo de Maliki, a violência se manteve no mesmo patamar registrado em 2010. Porém, ela se agravou em 2012 e parece ter ressurgido com grande força atualmente – fomentada em grande parte pela insatisfação dos sunitas.
Se o premiê continuar em rota de colisão com os sunitas, há um elevado risco de que vertentes tribais, religiosas e políticas da etnia se reúnam em províncias tradicionalmente sunitas – como al-Ambar e Nineveh – para iniciar uma revolta organizada contra o governo xiita.

Retirada curda

Em março, os curdos – que têm suas próprias diferenças com Maliki – retiraram seus ministros e parlamentares de Bagdá. Suas forças militares também expandiram seu controle pela área em disputa de Kirkuk, onde há produção de petróleo. As ações ocorreram logo após o episódio de Hawija.
Por tudo isso, não é difícil imaginar o Iraque se dividindo em uma guerra sectária entre xiitas e sunitas, enquanto os curdos seguem um caminho independente no norte.
Ignorando a dinâmica interna do país e seu próprio papel no problema, Maliki alertou que a "luta sectária" está voltando ao Iraque, a partir da Síria.
"Há um vento por trás disso, e dinheiro e planos", disse, aparentemente se referindo ao apoio sunita regional para insurgentes e dissidentes.
Certamente houve interação desde o início entre áreas sunitas no oeste iraquiano e a revolta com bases sunitas além da fronteira síria – dando de forma não surpreendente características tribais e familiares ao conflito, que envolve também militante sunitas da Al-Qaeda.
Enquanto os iraquianos sunitas dão apoio aos rebeldes sírios, o governo de Maliki, possivelmente influenciado pelo Irã, dá suporte ao presidente Bashar Assad, apesar de diferenças políticas anteriores.
Então, para o Iraque, o resultado do conflito na Síria será muito importante. Se o regime alauíta cair, desintegrando o país ou abrindo caminho para um governo sunita, será mais difícil manter os iraquianos sunitas na órbita do governo central.
Se sunitas do Iraque e da Síria se juntarem, os xiitas iraquianos deverão se voltar ainda mais para seus aliados no Irã.
Mas, dentro do contexto iraquiano, se Maliki demonstrar que o episódio de Hawija foi uma aberração e fizer concessões para aplacar os sunitas, poderá retomar a situação – até porque os sunitas enfrentam grandes dificuldades de união.

Influência iraniana

O futuro do Iraque também dependerá dos desejos do Irã, devido à sua inquestionável influência sobre grupos políticos xiitas – e em menor escala sobre os curdos.
O pensamento de Teerã está dominado pela necessidade de salvar seus aliados estratégicos em Damasco.
É difícil de se imaginar como esse objetivo poderia ser atingido com a fragmentação e o caos no Iraque. Teerã se envolveu na divisão do poder no Iraque em 2010 e não há nenhuma razão em particular para se supor que o país estaria agora interessado na desestabilização e desintegração iraquiana.
Apesar de haver elementos separatistas em praticamente todas as comunidades do Iraque, em termos gerais uma divisão do país não seria do interesse de ninguém.
Os curdos no norte estão experimentando o melhor de dois mundos: têm um grau de liberdade apenas alguns degraus abaixo da independência e gozam de uma parte significativa das verbas do orçamento federal, de uma boa fatia de poder e de um papel vital de intermediação em Bagdá.
Enquanto a independência permanece sendo seu maior sonho, os curdos sabem que não têm saída para o mar e são dependentes dos vizinhos – Iraque, Irã, Síria e Turquia –, cujo apoio é necessário para atingir tal objetivo. Por enquanto, resolver seus assuntos dentro da federação iraquiana é a melhor opção.
Essa pode ser uma das razões que explicam os resultados iniciais positivos obtidos em uma reunião entre Maliki e os curdos, na semana passada. Ela pode ser a tábua de salvação do premiê, uma vez que provocou o retorno dos ministros e políticos curdos a Bagdá.
Os xiitas "seriam os maiores perdedores com uma separação do país – e o que eles ganhariam com uma aliança com o Irã?" - disse um observador veterano no Iraque.
"O mesmo vale para os sunitas, muitos não gostariam de uma divisão do Iraque – eles querem dominar o país inteiro, como fizeram por séculos".
Tudo isso não é para dizer que os cenários catastróficos podem não acontecer.
Mas ainda há fatores poderosos mantendo o Iraque unido.
Pelo menos por enquanto, os iraquianos ainda estão falando sobre uma luta feroz nas urnas, nas eleições gerais do ano que vem, e não em sacos de areia e trincheiras.

Começa julgamento de policiais acusados por morte de PC Farias

Começou na tarde desta segunda-feira no Fórum de Maceió o julgamento de quatro policiais militares acusados de duplo homicídio pelas mortes de Paulo César Farias, o PC Farias, e da namorada dele, Suzana Marcolino.
O julgamento chega 17 anos após a morte do tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello e é presidido pelo juíz Maurício Breda.
Os policiais que encontraram os corpos na casa de praia de PC Farias eram responsáveis por sua segurança particular na época e estão sendo acusados por omissão.
A promotoria entendeu que houve omissão pelo fato de eles estarem presentes na cena do crime mas não terem impedido as mortes, alegando não terem ouvido os tiros.
PC Farias respondia por em liberdade condicional a uma série de acusações, dentre as quais falsidade ideológica, sonegação fiscal e enriquecimento ilícito.
A tese que foi tida como mais aceita nos últimos anos é a de que Suzana Marcolino teria assasssinado PC e depois cometido suicídio.

Com problemas semelhantes a Rio e SP, Londres aumenta segurança de ciclistas

Risco de colisões com veículos, ruas esburacadas, ciclovias insuficientes e cruzamentos arriscados, problemas que afligem diariamente ciclistas no Rio de Janeiro e em São Paulo, são perigos comuns também em Londres, ainda que em menor escala.
A capital britânica tenta há vários anos viabilizar a bicicleta como alternativa real de transporte. Nos últimos dez anos, o volume de bicicletas na cidade aumentou mais de 150%. Hoje, cerca de 300 mil ciclistas circulam pelas ruas de Londres diariamente.
Os investimentos da prefeitura para tornar as vias londrinas mais seguras e atraentes para ciclistas aumentaram de dois milhões de libras em 2001 (R$ 6 milhões) para 100 milhões de libras (R$ 300 milhões) este ano, mas grupos cicloativistas defendem que ainda há muito a fazer para que o veículo sobre duas rodas seja a opção de transporte preferido dos londrinos.
O grupo London Cycling Campaign (LCC), que tem quase 12 mil membros e há 30 anos milita para aumentar a popularidade da bicicleta e a segurança dos ciclistas, reconhece que o número de acidentes com mortes caiu 20% nos últimos 10 anos, apesar do considerável aumento no número de bicicletas nas ruas no mesmo período.
Ainda assim, as ruas de Londres estão longe de ser um lugar seguro para ciclistas, que não contam com ciclovias em muitas partes da cidade e são obrigados a disputar espaço com ônibus, caminhões e vans, apontados como os maiores culpados por mortes de ciclistas. No ano passado, 14 pessoas perderam a vida enquanto andavam de bicicleta na capital britânica.
"Estamos atuando em várias frentes junto ao governo para que a voz dos ciclistas seja ouvida e discursos sejam traduzidos em ações", afirma à BBC Brasil Charlie Lloyd, da London Cycling Campaign.

Londres à moda holandesa

Lloyd diz que a organização vem colhendo frutos de campanhas cujo objetivo é trazer para Londres o modelo de ciclismo holandês, considerado referência na Europa. No ano passado, a LCC lançou a campanha Love London, Go Dutch (Ame Londres à moda holandesa, em tradução livre), que gerou repercussão na campanha eleitoral para a prefeitura.
A discussão provocou um debate acalorado entre os candidatos, que na reta final da disputa, em maio de 2012, realizaram um encontro com objetivo único de divulgar suas propostas sobre ciclismo na cidade.
Reeleito, o conservador Boris Johnson divulgou há dois meses o documento "Vision for Cycling in London" (Uma visão sobre ciclismo em Londres), em que prometia redesenhar as ruas da capital britânica inspirando-se no modelo da Holanda.
Com orçamento de 400 milhões de libras (R$ 1,2 bilhão), o novo projeto prevê a criação de ciclovias que seguirão os trajetos das linhas de ônibus, metrôs e trens. Novas pistas para ciclistas serão construídas paralelamente às ruas, ficando separadas por um meio fio. Também está prevista a construção de um corredor expresso exclusivo para bicicletas com 24 quilômetros de extensão que vai ligar Londres de oeste a leste, passando pelo centro financeiro da cidade.
As obras, que devem ficar prontas até 2020, preveem ainda a instalação de ciclovias mais calmas, que vão passar por trás de avenidas movimentadas, geralmente evitadas pelos ciclistas mais cautelosos.
Um projeto que já está em teste na cidade é uma rotatória mais segura para ciclistas inspirada no molde holandês. O cruzamento prevê ciclovias construídas em paralelo às pistas principais, evitando que bicicletas e veículos circulem no mesmo espaço.

Educação no trânsito

Entre outros projetos defendidos pela London Cycling Campaign, está uma iniciativa em diversos bairros da cidade para oferecer treinamento para motoristas de caminhões. Até agora, quatro mil motoristas já foram treinados para ficar mais atentos à presença de ciclistas.
"Outra reivindicação é de que os caminhões sejam mais bem equipados com sensores eletrônicos para detectar a aproximação de bicicletas", diz Lloyd. "Queremos também aumentar a quantidade de caminhões com portas de vidro e estamos propondo mudanças no design das cabines para que os motoristas fiquem sentados mais abaixo, podendo ver ciclistas mais facilmente", diz o cicloativista.
Ao mesmo tempo em que é preciso educar motoristas, é importante também treinar os ciclistas. Hoje, diversos bairros londrinos oferecem cursos de ciclismo, em que adultos aprendem como guiar a bicicleta no trânsito.
Na semana passada, um grupo de parlamentares de vários partidos divulgou um documento em que defendem, entre outras propostas, aulas de bicicletas para crianças nas escolas primárias.
Ideias como essas são amplamente apoiadas por diversas associações de ciclistas londrinos, que já são vistos como uma espécie de "categoria".
Além de organizações, diversos blogs como Cyclist in the City e ibikelondon, além de páginas dedicadas ao ciclismo nas principais redes sociais, são cada vez mais populares entre os amantes dos pedais.
E eles não se encontram somente no mundo virtual. Há lugares badalados, como o café Look Mum no Hands, no centro da cidade, onde os ciclistas se reúnem para tomar um café e, se precisarem, podem contar com um serviço de conserto de bicicletas que funciona no local.
Ao longo do ano, são vários os eventos organizados para os praticantes do ciclismo. Um dos mais conhecidos é o Critical Mass, que reúne um grupo de ciclistas em uma volta por Londres toda última sexta-feira do mês.

Benefícios

A bicicleta caiu no gosto dos ingleses há cerca de dez anos, como forma de driblar o alto custo do transporte público, manter a forma e preservar o meio ambiente.
Pesquisa recente realizada pela London School of Economics (LSE) mostrou que a indústria do ciclismo já injetou mais de 600 milhões de libras (R$ 1,8 bilhão) na economia britânica, com a expansão de fábricas de bicicletas e aumento nas vendas. Em 2010, as vendas em todo o país aumentaram 28%, elevando o total de bicicletas para 3,7 milhões. Estima-se que o setor empregue cerca de 23 mil pessoas.
Ainda de acordo com o estudo, o uso da bicicleta também se traduz em benefícios para as empresas. Ciclistas assíduos tiram um dia de folga a menos por motivos de doença, economizando 128 milhões de libras por ano (R$ 384 milhões).
De olho nisso, empresários vêm investindo nos últimos anos para melhorar a estrutura dos escritórios, construindo bicicletários e vestiários com chuveiros. Muitas companhias também aderiram ao programa Cyclescheme, esquema do governo que possibilita que funcionários comprem uma bicicleta de até mil libras (R$ 3 mil) sem pagar imposto. O valor é descontado do salário em 12 parcelas.

domingo, 5 de maio de 2013

Bombardeios são alerta israelense a Assad

Em janeiro deste ano, Israel bombardeou um comboio de armas que, segundo seu serviço de inteligência, transportava avançados SA-17, um tipo de míssil antiaéreo. As armas sairiam da Síria para ser entregues a militantes libaneses do Hezbollah.
O ataque foi um alerta, um esforço para dissuadir o regime do presidente Bashar al-Assad de fazer transferências de armas para seus aliados no Líbano.
Os recentes ataques aéreos mostram que esse objetivo de dissuasão não foi atingido. Eles são prova de que a Força Aérea israelense tem condições de atacar alvos no coração da Síria, e de que eles podem ser os primeiros de muitos. Um padrão regular de bombardeios eleva o risco de levar a Síria e o Hezbollah a se engajarem em uma guerra regional. O pesadelo do conflito na Síria se espalhar por toda a região se tornaria uma realidade.
Então qual é a preocupação israelense? Enquanto uma boa parcela da atenção de Israel e dos Estados Unidos se volta para a possibilidade do arsenal de armas químicas sírias caírem em mão erradas, os ataques aéreos ressaltam a preocupação israelense sobre o repasse de avançados armamentos convencionais para o Hezbollah.
Isso inclui mísseis destinados a abater aeronaves, navios, blindados e tropas. Tal preocupação não é nova.
Há cerca de quatro anos, o governo do então premiê Ehud Olmert alertou que não toleraria a transferência do que chamou de "armas capazes de mudar o jogo" para o Hezbollah.
De acordo com a inteligência americana, o alvo do ataque da última quinta-feira foi um carregamento de mísseis terra-terra (disparados do solo para atingir alvos também na superfície) em um armazém no aeroporto de Damasco.
Os mísseis, que teriam sido comprados do Irã, seriam Fateh-110s, movidos a combustível sólido – cujas características são mobilidade e precisão. Eles seriam capazes de atingir as principais cidades israelenses, inclusive Tel Aviv, se disparados do sul do Líbano.
O que não ficou claro, segundo disse a inteligência americana, é quem exatamente receberia os mísseis: o Exército sírio ou o Hezbollah. O armazém atacado seria controlado pelo Hezbollah e pelo grupo paramilitar iraniano Força Quds.

Jogo longo?

Esse episódio destaca novamente o forte triângulo de relacionamento entre Terã, Damasco e o Hezbollah. De fato, relatórios recentes sugerem o envolvimento crescente do Hezbollah na guerra da Síria. De acordo com algumas fontes, centenas de militantes do Hezbollah combatem ao lado das forças militares de Assad no campo de batalha.
O Irã, ao ver seu aliado sírio em dificuldades, estaria ansioso por reforçar as defesas do Hezbollah no Líbano. Assad, por sua vez, deve se sentir obrigado a transferir armas para o Hezbollah em retribuição ao seu apoio ativo. Isso significa que quanto maior for o ritmo de desintegração do regime sírio, mais rápida serão as transferências de armas.
Essas transferências também são vantajosas para Assad, pois podem ajudar a mantê-lo no jogo por mais tempo. Se seu regime perder terreno e ele for obrigado a levar seu governo para a região costeira – onde fica o coração de sua etnia alauíta - , o Hezbollah com sua estrutura militar será um aliado ainda mais importante.
Por outro lado, se Assad conseguir permanecer em Damasco, um Hezbollah forte manteria presente a possibilidade de escalada da crise síria para um conflito regional – algo que Israel e os EUA querem desesperadamente evitar.
Dada a escassez de fatos concretos, torna-se difícil tirar conclusões definitivas. Relatórios de inteligência israelenses sugerem, por exemplo, que os mísseis destruídos no aeroporto de Damasco não seriam Fateh-110s iranianos, mas M-600, de fabricação síria.
Mas, o fato mais intrigante é o segundo ataque aéreo isrelense realizado na madrugada deste domingo. O alvo dessa vez foi um complexo militar perto de Jamraya – uma área com quartéis generais, centros de pesquisas e outras instalações. Ainda não sabemos qual foi o alvo, ou os alvos atingidos, embora o fogo provocado pela explosão tenha sido visto até de Damasco.
Provavelmente a natureza desse alvo contenha a real mensagem de Israel para o presidente sírio.
Isso deixa Assad e o Hezbollah em uma posição difícil. Eles devem dar algum tipo de resposta? Os dois se consideram campeões da resistência contra Israel. No passado, o Hezbollah tentou atacar alvos israelenses fora de Israel. Certamente, qualquer resposta militar direta da Síria ou do sul do Líbano levariam a um confronto maior, que tanto Assad quanto o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, querem evitar.
Entretanto, é difícil imaginar que os carregamentos de armas serão totalmente interrompidos. Há muitas coisas em jogo. Dependendo das condições climáticas e da capacidade da inteligência israelense, muitas armas ainda podem cruzar a fronteira do Líbano.
A crise da Síria está entrando em um novo território. Especialistas israelenses estão alertando, com razão, para a possibilidade de guerra. Os detalhes ainda são escassos, mas os ataques aéreos israelenses sobre alvos sírios nos últimos dias são um podersoso sinal.
Enquanto o presidente americano Barack Obama hesita em agir para implementar seu alerta final sobre o uso de armas químicas por Damasco, Israel está empenhado em dar sua própria advertência definitiva sobre a transferência de armas da Síria para o Hezbollah.

Coalizão governista vence eleição na Malásia

A coalizão governista Frente Nacional venceu a eleição na Malásia por maioria simples, perpetuando um governo de 56 anos. O grupo obteve dois terços das vagas do Parlamento.
Segundo a Comissão eleitoral do país, a Frente Nacional (Barisan Nasional), do premiê Najib Razak, obteve 112 das 222 cadeiras do órgão.
O líder opositor derrotado Anwar Ibrahim acusou os governistas de fraude generalizada antes e durante as pesquisas.
Cerca de 80% dos eleitores votaram, segundo autoridades eleitorais.
Eles escolheram manter os governistas no poder, ao invés de apostar na aliança opositora Pakatan Rakyat, formada por três partidos.
Embora tenha recebido méritos por promover desenvolvimento econômico e estabilidade política, a Frente Nacional foi contaminada por denúncias de corrupção.
Os governistas enfrentaram uma disputa acirrada e tiveram que se esforçar para levar a sua campanha às comunidades ruais pobres do país.
A vitória ocorreu por volta de 1h (14h de Brasília), quando a Frente Nacional conquistou a maioria no Parlamento.
Antes disso, o premiê disse que estava confiante na vitória e que acreditava que sua coalizão reconquistaria os dois terços do Parlamento – que haviam sido perdidos em 2008.

Britânicos iniciam resgate de avião da 2ª Guerra

Cientistas, historiadores, mergulhadores e engenheiros britânicos iniciaram nesta sexta-feira os trabalhos para recuperar do fundo do Canal Mancha um avião alemão da 2ª Guerra Mundial.
O Dornier 17 será restaurado após o resgate em um trabalho que levará dois anos e será coordenado pelo Museu da RAF (a Força Aérea britânica).
Nos anos 40, essa aeronave era considerada ágil e fácil de pilotar, sendo uma das apostas dos Alemães para vencer a Grã-Bretanha na guerra.
"Esse era o melhor avião para voar a alturas baixas. Ele nos permitia voar bem próximo ao chão", diz Gerhard Krems, o último homem vivo a ter pilotado um Dornier. "O avião era ágil, muito fino e elegante. Por isso ganhou um apelido apropriado: o lápis voador."
Até pouco tempo, se acreditava que nenhum Dornier 17 havia sobrevivido à passagem do tempo. Cinco anos atrás, porém, uma equipe de mergulhadores descobriu os restos do avião em questão a 15 metros de profundidade, em um banco de areia.
Estudos posteriores confirmaram que tratava-se de um Dornier 17 e o Museu da RAF decidiu resgatá-lo e colocá-lo em exposição na base de Hendon, nos arredores de Londres, a um custo total de 500 mil libras (R$1.563).
Para Chris Goss, um historiador especializado em aeronaves militares, o achado tem uma grande importância histórica.
"Essa aeronave será a único de seu tipo no mundo. Temos alguns fragmentos de outras aeronaves desse tipo. Mas essa está completa e, portanto, seu valor do ponto de vista histórico é incalculável", diz.

Queda

Acredita-se que o Dornier que será resgatado tenha caído no dia 26 de agosto de 1940, abatido pelo caça da RAF Boulton-Paul Defiant.
Ao ser atingido, o avião perdeu força e altura rapidamente e, quando tocou a água, provavelmente capotou. O piloto e um companheiro sobreviveram, mas pelo menos duas outras pessoas da tripulação teriam morrido.
Ao chegar no fundo do mar, o avião foi logo coberto por uma espécie de areia movediça, mas imagens subaquáticas mostram que boa parte de sua estrutura permaneceu intacta.
Faltam algumas partes, como as portas do compartimento de bombas, o vidro da cabine e as portas do trem de pouso. E o mais provável é que elas tenham sido arrancadas na queda.
Mas a fuselagem, as asas, motores e hélices ainda estão lá, bem como o trem de pouso - com pneus cheios.
Segundo Bob Peacock, mergulhador e arqueólogo marítimo que encontrou os destroços, isso não quer dizer que será fácil tirar o Dornier do mar. O avião está em um estado frágil e a sua recuperação e conservação será complicada.

Conservação

Mergulhadores (Foto PA)
Mergulhadores que fazem parte da equipe de resgate do PA
Holger Steinle, professor do Museu Técnico Alemão de Berlim, que tem bastante experiência em projetos de resgate de aeronaves da 2ª Guerra, é cético sobre a possibilidade de se conseguir manter o Dornier em boas condições.
Ele diz que a aeronave era feita de alumínio, material facilmente corroído pela água do mar, e adverte seus colegas britânicos para não esperarem muito. "Em 20 ou 30 anos pode ser que não sobre nada desse Dornier", acredita.
Já a cientista Mary Ryan, do Imperial College London, é mais otimista. Ryan foi contratada pelo Museu da RAF para encontrar uma maneira de parar o processo de corrosão da aeronave.
Trabalhando com um pequeno fragmento resgatado ela e sua equipe descobriram que uma mistura de água e ácido cítrico - mais precisamente, suco de limão - limpa o metal e impede a corrosão.
Por isso, o museu construiu estruturas equipadas com um sistema de pulverização para a aeronave. E nos próximos 18 meses, suas as asas e fuselagem receberão borrifadas de ácido cítrico por 10 minutos, a cada meia hora.
A operação para tirar o avião da água inteiro também não será fácil. Para isso, o museu contratou uma empresa de salvamento marítimo, a Seatech, que desenhou uma estrutura especial para ser construída ao redor do Dornier embaixo da água.
Por causa do movimento da água e da areia, provocado pelas mudanças das marés, os mergulhadores encarregados da construção dessa estrutura poderão operar por apenas 45 minutos, quatro vezes por dia - o que fará com que demorem até quatro semanas para concluir a tarefa.
Se tudo correr bem, o avião provavelmente poderá ser exposto ao público em cerca de dois anos, como previsto.

Ataques de Israel a Síria elevam tensões regionais

Os recentes ataques de Israel ao território sírio desataram uma escalada de tensões na região.
Segundo a TV estatal síria, foguetes disparados por Israel atingiram um complexo militar de pesquisas científicas em Damasco neste sábado.
Grandes explosões foram ouvidas na cidade e uma imagem divulgada pela Ugarit News mostra uma coluna de fumaça perto do local onde teria ocorrido o ataque, em Mount Qassioun - embora suas origens não tenham sido confirmadas.
"Foi como um terremoto e o céu ficou amarelo e vermelho", relatou Najwa, de 72 anos, à agência de notícias AFP.
No dia anterior, outro ataque teria sido feito por Israel contra um carregamento de mísseis sírios cujo destino seria o grupo libanês Hezbollah, na versão de autoridades israelenses.
Neste domingo, o Irã acusou os Estados Unidos de estarem por trás do ataque da véspera e ameaçaram Israel.
"O ataque realizado pelo regime sionista vai encurtar a existência desse regime", disse o ministro da Defesa iraniano, general Ahmad Vahidi, segundo o site da Guarda Revolucionária do Irã.
"Ele foi realizado com a luz verde dos EUA e revela ligações entre terroristas mercenários e seus mestres do regime sionista. "
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Ramin Mehmanparast, também condenou a ação israelense e conclamou os países da região a "resistirem sabiamente a tais agressões", segundo a agência de notícias Fars.
Mais cedo, o presidente Mahmoud Ahmadinejad havia exigido, durante um discurso, que as potências ocidentais deixassem de intervir no conflito sírio.
Segundo divulgou uma porta-voz do Exército israelense, um sistema de defesa antimísseis foi reforçado no norte do país para eventuais ataques.
"O novo ataque israelense é uma tentativa de levantar o moral de grupos terroristas que estão cambaleando devido a ataques de nosso nobre Exército", disse a TV estatal síria.
Forças do governo sírio e grupos rebeldes estão disputando o controle de áreas dos arredores de Damasco. Segundo a ONU ais de 70 mil pessoas já morreram no conflito desde seu início, em 2011.

sábado, 4 de maio de 2013

Sírios fogem de massacres na região costeira

Centenas de sírios estão fugindo das áreas costeiras do país, onde ativistas ligados à oposição acusam forças do governo de promover massacres em uma suposta campanha de "limpeza sectária".
A matança mais recente teria ocorrido na região de Baniyas. Imagens de corpos mutilados e queimados, supostamente captadas no local, foram publicadas na internet.
Ativistas disseram que ao menos 77 pessoas (20 delas da mesma família) foram mortas na cidade de Ras al-Nabaa. As mortes ocorreram um dia após os assassinatos de 72 moradores de Bayda.
O governo de Bashar Assad afirmou que contra-atacou "grupos terroristas" e reestabeleceu a paz e a segurança na área.
Segundo os ativistas, a primeira das duas matanças havia ocorrido na vila sunita de Bayda na última quinta-feira. Entre as vítimas estavam mulheres e crianças. Eles listaram os nomes das 72 vítimas.
Nos dois casos imagens de vítimas foram publicadas na internet. Mas, como a imprensa internacional não tem autorização do governo sírio para trabalhar livremente no país, elas são difíceis de se verificar.
O correspondente da BBC no Líbano, Jim Muir, disse que as imagens mostram muitos corpos ensanguentados e emaranhados de mulheres e crianças. Parte deles traz sinais de mutilação e incineração.
Centenas de famílias estão fugindo da região de Baniyas em direção ao sul. O objetivo delas é chegar à cidade de Tartus, mas ativistas afirmaram que os deslocados internos estão sendo impedidos de se estabelecer e obter abrigo no local.
O bloqueio à chegada das famílias estaria sendo realizado pela Shabbiha, uma milícia favorável ao governo.
Segundo Muir, há uma forte dimensão sectária nessas ações. Ele afirmou ainda que opositores de Assad acusam o governo de lançar uma campanha de "limpeza sectária".
A operação também está sendo interpretada como um sinal de determinação de Assad para lutar pela posição de seu governo e consolidá-la.
O presidente sírio fez uma aparição pública neste sábado na Universidade de Damasco, segundo a mídia estatal. Cercado por seguranças em meio a uma multidão, ele inaugurou uma estátua dedicada aos "estudantes mártires".

Ataques aéreos

Matanças anteriores


Abril de 2011: Mais de 70 pessoas não mortas quando forças de segurança disparam contra multidões em Daraa e Damasco

Dezembro de 2011: Ativistas dizem que mais de 100 militares desertores são mortos em dois dias na província de Idlib

Maio de 2012: mais de 100 são mortos em Houla, perto de Homs. Mais tarde a ONU culpou tropas sírias e milícias pelos assassinatos

Agosto de 2012: Testemunhas e opositores dizem que 300 pessoas são mortas por forças do governo em Darayya, um subúrbio de Damasco

Janeiro de 2013: Ao menos 100 pessoas são assassinadas e queimadas em suas casas em Haswiya, perto de Homs
Enquanto isso, militares israelenses confirmaram que o país lançou um ataque aéreo em território sírio.
Sob anonimato, oficiais afirmaram que o alvo do foi um carregamento de armas supostamente destinado ao Hezbollah, no Líbano.
Os governos de Israel e da Síria não comentaram o ataque. Em janeiro, Israel havia realizado ação semelhante ao atacar um comboio que transportaria armas.

Armas químicas

Esforços itnernacionais para lidar com a violência na Síria recentemente se focaram no suposto uso de armas quiímicas pelo regime.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que se tais ações forem confirmadas, elas poderiam mudar a posição atual americana em relação ao conflito. Mas, na sexta-feira, Obama disse que ainda não encarava a possibilidade de enviar tropas à Síria.
Porém, os EUA voltaram a discutir a ideia de fornecer armas aos opositores de Assad – hipótese que Obama havia recusado no ano passado.
Analistas dizem que a Casa Branca e seus aliados estariam debatendo ainda a ideia de usar ataques aéreos para criar uma zona de exclusão aérea sobre o país. Porém, a Rússia se opôs a essa possibilidade.
Em comunicado, o governo americano afirmou que estava "chocado" com os últimos episódios relatados por ativistas na região costeira.
"Nós condenamos fortemente atrocidades contra a população civil e reforçamos nosa solidariedade com o povo sírio".
"Uma vez que a violência do regime de Assad contra civis inocentes aumenta, não vamos perder de vista os homens, mulheres e crianças cujas vidas estão sendo tão brutalmente reduzidas".
"Os responsáveis por sérias violações do direito humanitário internacional e da lei de direitos humanos devem ser responsabilizados".

Choques entre cristãos e muçulmanos provocam toque de recolher na Nigéria

Um toque de recolher foi imposto no Estado de Taraba, na Nigéria após a morte de mais de 40 pessoas em confrontos entre cristãos e muçulmanos.
A violência começou na sexta-feira durante o funeral de um líder cristão. Testemunhas afirmaram que uma procissão Jukun, um grupo étnico cristão, passou por um bairro muçulmano entoando palavras de ordem.
A polícia interveio, mas o conflito deixou dezenas de mortos e feridos.