sexta-feira, 8 de novembro de 2013

MP-SP pode responsabilizar prefeitura e dono de academia por incêndio

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou inquérito, nesta sexta-feira, para apurar o incêndio que ocorreu nesta madrugada em uma academia na rua Boticário, esquina com a avenida Ipiranga, no centro da capital paulista. Segundo o promotor de Justiça de Habitação e Urbanismo Maurício Antonio Ribeiro Lopes, a prefeitura de São Paulo e os donos da academia podem ser responsabilizados caso seja comprovado que o estabelecimento funcionava sem alvará.
De acordo com o promotor, a falta de alvará é responsabilidade das subprefeituras. “É inaceitável na cidade que esta academia com 23 filiais esteja funcionando sem qualquer fiscalização”, disse.
Segundo a portaria de instauração do inquérito civil, a academia teve negado, em março, o Atestado de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) por causa de irregularidades na segurança contra incêndios. A portaria também destaca que as portas contra fogo do prédio estavam trancadas no momento do incêndio e que o estabelecimento também não possuía alvará de funcionamento.
Incêndio atinge academia e prédio no centro de São Paulo
Um incêndio de grandes proporções atingiu uma academia e um edifício residencial com 26 andares, que foi afetado pela fumaça tóxica. Segundo o Corpo de Bombeiros, pelo menos  100 pessoas foram atendidas e 30 vítimas encaminhadas para hospitais como o Pronto-Socorro da Santa Casa, Hospital Vergueiro e Instituto da Criança. Uma das vítimas, um idoso chinês, teve queimaduras de segundo grau no rosto e nas mãos.
Vítimas
A maioria dos moradores do prédio residencial estava dormindo quando o incêndio começou. Foi o caso de Júlia Nascimento, 18 anos, que deixou o apartamento acompanhada pela mãe e pela irmã. “Por volta de 1h, ouvi muitos gritos. As pessoas gritavam ‘fogo, fogo!’ – Acordei com barulho das janelas quebrando e fui chamar minha mãe e minha irmã. Então, corremos para a rua”.
Segundo a jovem, nos primeiros instantes do incêndio, pessoas desesperadas chegaram a fazer cordas com lençóis para deixar o prédio pela janela. A cortina de fumaça teria dificultado a passagem pelos corredores. Com o fogo controlado, Júlia pretende pegar alguns pertences e seguir para a casa de uma amiga, no mesmo bairro.
O prédio residencial ao lado da academia abrigava muitos estrangeiros, principalmente asiáticos. Segundo os bombeiros, o idioma foi uma barreira natural, já que em alguns andares a fumaça não chegou e os moradores não entendiam que se tratava de um incêndio.
Um casal de chineses falou com a reportagem do Terra e disse que a fumaça fez com que eles subissem as escadas. “Eu acordei com o barulho e não sabia o que fazer. Não dava para  descer, então eu subi com o meu marido”, disse Li, moradora do prédio atingido.
Moradora do primeiro andar do prédio, a aposentada Maria Helena Cavalcante, 71 anos, foi uma das primeiras a deixar o imóvel. “Eu não vi nada por causa da fumaça. Eu praticamente rodei na escada”, disse a mulher, que mora com a filha. “Minha filha desceu quase pelada para a rua”, falou.Já o advogado Amaral Cardoso Pereira trabalha no prédio ao lado, também danificado pelo incêndio. Segundo ele, outras quatro pessoas trabalham em seu escritório. “Eu vi o incêndio pela televisão por volta das 6h30 e vim correndo pra cá. Vou tentar tirar os meus documentos do prédio. A minha vida está lá dentro”, disse.
Irregularidades
Segundo o Corpo de Bombeiros, existem irregularidades no prédio comercial no qual funcionava a academia. De acordo com o tenente-coronel Correa Leite, o prédio não estava com a vistoria feita pelo Corpo dos Bombeiros em dia. "O projeto que foi apresentado precisava de alterações e não foi aprovado. Ele estava em trâmite", disse.
Mais cedo, o coronel Roberto Rensi Cunha  havia informado que outras irregularidades haviam prejudicado o trabalho dos soldados.  “Quando chegamos, vimos que as portas corta-fogo estavam trancadas, o que é irregular. Nos deram um molho de chaves e tivemos que abrir as portas, o que dificultou o nosso trabalho”, falou.
Ainda segundo o coronel, as chamas foram intensificadas em três pavimentos por causa de outra irregularidade: a presença de gás GLP em botijões. “É proibido o uso de botijões nesse tipo de apartamentos, a não ser em áreas externas. A presença de GLP potencializou as chamas”, disse.
Interdições
A Defesa Civil foi acionada e acompanha o trabalho de rescaldo do Corpo de Bombeiros. Ao todo, 146 apartamentos foram atingidos nos dois prédios, que foram interditados por problemas estruturais e na parte elétrica. Três lojas que funcionam no local também foram lacradas.
Segundo o coordenador da Defesa Civil, Jair Paca de Lima, moradores seriam acompanhados aos seus apartamentos, de maneira ordenada, para que pertences fossem retirados. Após isso, os prédios seriam completamente interditados.
A prefeitura oferece aos desalojados vagas em albergues municipais, mas a maioria dos moradores está optando por ficar em casas de parentes, amigos ou até em hotéis da região.

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