O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou inquérito, nesta
sexta-feira, para apurar o incêndio que ocorreu nesta madrugada em uma
academia na rua Boticário, esquina com a avenida Ipiranga, no centro da
capital paulista. Segundo o promotor de Justiça de Habitação e Urbanismo
Maurício Antonio Ribeiro Lopes, a prefeitura de São Paulo e os donos da
academia podem ser responsabilizados caso seja comprovado que o
estabelecimento funcionava sem alvará.
De acordo com o promotor, a
falta de alvará é responsabilidade das subprefeituras. “É inaceitável
na cidade que esta academia com 23 filiais esteja funcionando sem
qualquer fiscalização”, disse.
Segundo a portaria de instauração
do inquérito civil, a academia teve negado, em março, o Atestado de
Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) por causa de irregularidades na
segurança contra incêndios. A portaria também destaca que as portas
contra fogo do prédio estavam trancadas no momento do incêndio e que o
estabelecimento também não possuía alvará de funcionamento.
Incêndio atinge academia e prédio no centro de São Paulo
Um
incêndio de grandes proporções atingiu uma academia e um edifício
residencial com 26 andares, que foi afetado pela fumaça tóxica. Segundo o
Corpo de Bombeiros, pelo menos 100 pessoas foram atendidas e 30
vítimas encaminhadas para hospitais como o Pronto-Socorro da Santa Casa,
Hospital Vergueiro e Instituto da Criança. Uma das vítimas, um idoso
chinês, teve queimaduras de segundo grau no rosto e nas mãos.
Vítimas
A
maioria dos moradores do prédio residencial estava dormindo quando o
incêndio começou. Foi o caso de Júlia Nascimento, 18 anos, que deixou o
apartamento acompanhada pela mãe e pela irmã. “Por volta de 1h, ouvi
muitos gritos. As pessoas gritavam ‘fogo, fogo!’ – Acordei com barulho
das janelas quebrando e fui chamar minha mãe e minha irmã. Então,
corremos para a rua”.
Segundo a jovem, nos primeiros instantes do
incêndio, pessoas desesperadas chegaram a fazer cordas com lençóis para
deixar o prédio pela janela. A cortina de fumaça teria dificultado a
passagem pelos corredores. Com o fogo controlado, Júlia pretende pegar
alguns pertences e seguir para a casa de uma amiga, no mesmo bairro.
O
prédio residencial ao lado da academia abrigava muitos estrangeiros,
principalmente asiáticos. Segundo os bombeiros, o idioma foi uma
barreira natural, já que em alguns andares a fumaça não chegou e os
moradores não entendiam que se tratava de um incêndio.
Um casal de
chineses falou com a reportagem do Terra e disse que a fumaça fez com
que eles subissem as escadas. “Eu acordei com o barulho e não sabia o
que fazer. Não dava para descer, então eu subi com o meu marido”, disse
Li, moradora do prédio atingido.
Moradora do primeiro andar do
prédio, a aposentada Maria Helena Cavalcante, 71 anos, foi uma das
primeiras a deixar o imóvel. “Eu não vi nada por causa da fumaça. Eu
praticamente rodei na escada”, disse a mulher, que mora com a filha.
“Minha filha desceu quase pelada para a rua”, falou.Já o advogado Amaral
Cardoso Pereira trabalha no prédio ao lado, também danificado pelo
incêndio. Segundo ele, outras quatro pessoas trabalham em seu
escritório. “Eu vi o incêndio pela televisão por volta das 6h30 e vim
correndo pra cá. Vou tentar tirar os meus documentos do prédio. A minha
vida está lá dentro”, disse.
Irregularidades
Segundo
o Corpo de Bombeiros, existem irregularidades no prédio comercial no
qual funcionava a academia. De acordo com o tenente-coronel Correa
Leite, o prédio não estava com a vistoria feita pelo Corpo dos Bombeiros
em dia. "O projeto que foi apresentado precisava de alterações e não
foi aprovado. Ele estava em trâmite", disse.
Mais cedo, o coronel
Roberto Rensi Cunha havia informado que outras irregularidades haviam
prejudicado o trabalho dos soldados. “Quando chegamos, vimos que as
portas corta-fogo estavam trancadas, o que é irregular. Nos deram um
molho de chaves e tivemos que abrir as portas, o que dificultou o nosso
trabalho”, falou.
Ainda segundo o coronel, as chamas foram
intensificadas em três pavimentos por causa de outra irregularidade: a
presença de gás GLP em botijões. “É proibido o uso de botijões nesse
tipo de apartamentos, a não ser em áreas externas. A presença de GLP
potencializou as chamas”, disse.
Interdições
A
Defesa Civil foi acionada e acompanha o trabalho de rescaldo do Corpo
de Bombeiros. Ao todo, 146 apartamentos foram atingidos nos dois
prédios, que foram interditados por problemas estruturais e na parte
elétrica. Três lojas que funcionam no local também foram lacradas.
Segundo
o coordenador da Defesa Civil, Jair Paca de Lima, moradores seriam
acompanhados aos seus apartamentos, de maneira ordenada, para que
pertences fossem retirados. Após isso, os prédios seriam completamente
interditados.
A prefeitura oferece aos desalojados vagas em
albergues municipais, mas a maioria dos moradores está optando por ficar
em casas de parentes, amigos ou até em hotéis da região.
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