MPT diz que há fortes indícios de irregularidades no Mais Médicos
Desde
o lançamento do programa, em julho, a relação entre os médicos e o
Ministério da Saúde tem gerado duras críticas das entidades médicas.O relatório parcial do Ministério Público do Trabalho (MPT) diz que há
fortes indícios de que o formato do Mais Médicos tem irregularidades.
Segundo o relator do inquérito que investiga o programa do governo
federal, Sebastião Caixeta, há no mínimo "desvirtuamento de uma
autêntica relação de trabalho".
O relatório parcial da
investigação foi lido ontem (5) em audiência pública do MPT com a
Advocacia-Geral da União e os ministérios da Saúde e da Educação. Na
avaliação do MPT, o programa precisa de ajustes, sobretudo no caráter de
prestação de serviço. “É importante que a remuneração não seja em forma
de bolsa e sim de salário", disse em nota o relator. Além disso, o MPT
também defende que a relação de trabalho dos cubanos deve ser igual a
dos brasileiros.
Desde o lançamento do programa, em julho, a
relação entre os médicos e o Ministério da Saúde tem gerado duras
críticas das entidades médicas. Os profissionais do programa inscritos
individualmente recebem bolsa-formação no valor de R$ 10 mil para
trabalhar na atenção básica de regiões carentes que não conseguem atrair
médicos. Eles não têm vínculo empregatício com o Ministério da Saúde,
pois, segundo a pasta, eles irão participar de uma especialização na
atenção básica que dura os três anos do programa, nos moldes de uma
residência médica.
Já os médicos cubanos, que com os 3 mil
profissionais que ainda estão chegando para atuar na segunda etapa do
programa somam mais de 80% dos profissionais do Mais Médicos, chegam ao
Brasil por meio de um acordo entre Brasil e Cuba, intermediado pela
Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). O governo brasileiro faz o
pagamento à Opas e a organização repassa para Cuba, que fica com parte
da verba. Na prática, para fazer o mesmo trabalho, os médicos cubanos
vão ganhar entre 25% e 40% do que os brasileiros vão receber.
Todos
os médicos devem trabalhar por 32 horas semanais e ter a parte teórica
do programa por oito horas semanais. Apesar disso, depois de dois meses
de atuação de médicos da primeira etapa, o módulo teórico do programa
ainda não teve início. Os profissionais não têm contrato de trabalho,
mas têm direito a 30 dias de descanso anual remunerado, folga semanal,
licenças maternidade e paternidade, pois pagam previdência social
Nota
do MPT diz que o relator vai continuar em diálogo com o Ministério da
Saúde e ainda vai visitar locais de trabalho dos médicos, mas que ele
não tem expectativas de que a argumentação da pasta mude a sua crença de
que há uma relação de trabalho. "Chegando a essa convicção final, vamos
verificar a possibilidade de um termo de ajuste de conduta”, disse
Caixeta em nota. Caso não haja acordo, há possibilidade de o MPT entrar
com ação civil pública contra o programa.
O inquérito civil do
MPT, que ainda está em andamento, foi aberto em 28 de agosto. Nesta
terça-feira, além da audiência com representantes dos órgãos do governo,
o procurador Sebastião Caixeta também se reuniu com representantes do
Conselho Federal de Medicina e da Federação Nacional dos Médicos.
O
Ministério da Saúde se diz convicto da segurança jurídica do Mais
Médicos. "O Programa cumpre todas as regras legais em relação à atuação
dos profissionais, baseado na integração ensino e serviço. Todo processo
de formação em saúde requer um componente assistencial, ou seja, o
contato com a população por meio da modalidade de treinamento em
serviço, como ocorre nas residências. O Ministério da Saúde vai
esclarecer ao Ministério Público que não há incompatibilidade entre
formar médicos e levar atendimento à população", declarou em nota a
pasta.
A pasta ainda ressaltou que todos os profissionais que
participam do Mais Médicos estão vinculados a uma instituição de ensino
superior brasileira, com acompanhamento supervisionado, porém, de acordo
com uma médica do programa que não quis se identificar, ainda não houve
informações sobre a supervisão e nem sobre quando começam as aulas.
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